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Como a poeira da sua casa afeta a sua saúde

Aspirador de pó (Foto: Michal Jarmoluk/Pixabay)

 

Você aspira, varre e tira dos móveis. Mas você sabe o que ela é de fato — e como pode afetar sua saúde?

Não se sinta mal se você não sabe nada sobre a sua poeira. Cientistas não estão muito na frente de você quando o assunto é entender as fontes e os riscos para a saúde das partículas e ar internos.

Esse é um problema, porque as pessoas passam bastante tempo dentro de locais. De fato, um norte-americano médio, por exemplo, fica dentro de quatro paredes por quase 90% do dia. Então saber mais sobre como o ambiente interno afeta a sua saúde é vital.

Para melhor quantificar as influências ambientais na saúde, pesquisadores começaram a usar a técnica do “expossoma”, que considera toda exposição ambiental que uma pessoa tem ao longo da vida. O seu próprio expossoma inclui desde exposição à fumaça de cigarro quando você ainda era bebê até exposição a chumbo na infância e partículas de poluição se você cresceu próximo a uma estrada ou fábrica.

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A poeira é um grande componente do expossoma. Quais partículas você inala e ingere durante o dia?

Eu sou um geoquímico, e meu laboratório estuda a saúde do ambiente dentro de casa. Junto com o cientista Mark Taylor na Universidade Macquarie e outros parceiros internacionais, estou conduzindo um projeto de pesquisa no expossoma interno.

Em vez de jogar o pó do aspirador no lixo, cidadãos-cientistas colocam a poeira em um saco e a enviam ao nosso laboratório. Esse projeto, chamado 360 Dust Analysis (Análise 360 da Poeira), é um em um número de esforços recentes que começam a desvendar o mistério da poeira interna.

A poeira vem de dentro
Cerca de um terço da poeira caseira é criada dentro da própria casa. Os componentes variam dependendo do tipo de construção e idade da casa, clima e hábitos de limpeza ou de fumar dos ocupantes, então não há fórmula padrão para a poeira.

Primeiro, você e seus animais de estimação geram um pouco do detrito. Pele humana é parte dos debris. Assim como pelos de animais e bichos que se alimentam da pele — ambos fortes alérgenos.

De um modo geral, você pode ter certeza que a sua poeira também tem insetos em decomposição, restos de alimentos, fibras de tapetes, lençóis e roupas, e partículas de fumaça de cigarro e da cozinha. Nós desejamos que nosso projeto ajude a desvendar mais do mistério do que somente o que está na poeira.

Até agora, muita coisa nojenta. E há produtos químicos nessa mistura também. Por décadas, fabricantes trataram roupas e móveis com produtos químicos antichamas e protetores. Na verdade, por algum tempo, produtos antichamas eram obrigatórios por lei em móveis e pijamas de crianças.

Mas aí pesquisadores começaram a identificá-los no sangue e em tecidos do corpo humano, e há evidência de exposição até em recém-nascidos, dentro do útero. Como essas moléculas acabaram no corpo das pessoas? Principalmente por inalação ou ingestão de poeira interna.

Preocupações com a saúde sobre o que a gente coloca em nossas casas
Este é um ponto em que nova ciência e novas técnicas estão começando a levantar sérias bandeiras vermelhas sobre a saúde. Uma enxurrada de pesquisas atualmente tenta determinar a toxicidade potencial desses agentes químicos no corpo humano. Cientistas também estão desenvolvendo novas técnicas usando wearables, como pulseiras de silicone, para determinar a relação entre as fontes de poeira e quanto dela acaba no corpo de uma pessoa.

Um ambiente interno livre de animais e de fibras seria uma maneira de reduzir a quantidade e o potencial de toxicidade da poeira interna. Mas há uma preocupação adicional que surgiu com pesquisas recentes: o aumento da resistência de antimicróbios.

Pesquisas relacionaram alguns produtos desinfetantes à resistência de antimicróbios. Ao menos um estudo revelou que níveis elevados de triclosan, um agente antimicróbio comum em sabonetes, estavam relacionados a altos níveis de genes resistentes a antibióticos na poeira, presumivelmente de bactérias que vivem na sua casa e no pó. Essa relação ocorre por causa da destruição repetitiva, mas não completa, de bactérias e outros micróbios que eventualmente crescem e se proliferam, carregando genes resistentes.

A poeira que vem de fora
Para ter uma imagem completa das fontes de poeira e perigos, você precisa considerar os outros dois terços da composição da poeira interna, que na verdade vêm de fora. A poeira e a sujeira vêm nos nossos sapatos e nos pés e pelos de animais. Ela entra por janelas abertas, portas e buracos. E ela varia em tamanho e composição, de areia a pólen ou partículas minúsculas de terra.

Um dos maiores problemas de saúde relacionado a fontes externas é chumbo. Essa neurotoxina potente se acumulou a níveis extremamente altos no solo e poeira após um século de emissões industriais, carros queimando combustível com chumbo e tintas com chumbo. O perigo é particularmente grande em cidades grandes  ou próximas a locais de mineração ou outros pontos industriais de chumbo.

Solo contaminado com chumbo, e a poeira que vem dele, está intimamente ligado ao envenenamento por chumbo em crianças. Comprometendo o desenvolvimento neural, o chumbo pode provocar deficiências permanentes em crianças que foram expostas a ele.

Para tentar prevenir envenenamento por chumbo, cientistas têm focado no que chamam de fontes pontuais: coisas relativamente fáceis de identificar, como tinta descascando e canos de água de chumbo. Exposição a solo e poeira é menos estudada.

Pesquisadores recentemente encontraram correlações entre chumbo no ar e nível de chumbo no sangue em crianças. Agora, diversos grupos de laboratório estão olhando com cuidado não só para a exposição em ambientes externos, mas também para como o chumbo pode entrar em nossas casas e se tornar parte do expossoma interno.

Limite o que você conseguir
Muito como gases CFCs em refrigeradores e outros produtos causaram a degradação da camada de ozônio e o bisphenol A, um componente usado em plásticos, acabou dentro de nossos corpos, há preocupação entre cientistas de que “melhorias de vida através da química” possam resultar em consequências para a saúde não intencionais no mundo da poeira.

Tirar roupas usadas na rua, como jaquetas, e adotar uma política de não usar sapatos em casa é uma maneira de reduzir exposição interna a poluentes externos. As solas de sapatos são nojentas: 96% delas têm traços de bactérias de fezes, incluindo o resistente a antimicróbio C.diff, e mais de 90% dessas bactérias são transferidas para os pisos. Acrescente toxinas causadoras de câncer de resíduos de asfalto e produtos químicos usados em gramas, e a recomendação se torna ainda mais clara — nada de sapatos dentro de casa.

* Gabriel Filippelli é professor de Ciências da Terra e Diretor do Centro de Saúde Urbana, IUPUI

Texto originalmente publicado em inglês no site The Conversation.

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