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Livro "A Viagem de Cilka" retrata a face feminina do Holocausto

Livro A Viagem de Cilka revela a face feminina do Holocausto (Foto: Reprodução YouTube/StMartinsPress)

 

Holocausto é como ficou conhecido o genocídio de judeus cometido por nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Comandados por Adolf Hitler, eles alegavam que os arianos eram superiores e os judeus, responsáveis pelos os males da sociedade. Com isso, um dos meios mais emblemáticos e trágicos de extermínio eram os campos de concentração: áreas de confinamento em que essas pessoas eram escravizadas, torturadas e mortas.

O maior e mais emblemático deles foi o Campo de Auschwitz-Birkenau, na Polônia, onde acredita-se que o número de mortos tenha ultrapassado 1 milhão. Ele funcionou até 1945, quando os soviéticos ganharam a Guerra e libertaram cerca de 7 mil prisioneiros. 

 

 

 

Partindo da importância de falar sobre esse assunto para garantir que a memória coletiva não deixe a história impune, a escritora neozelandesa Heather Morris lançou o best-seller O Tatuador de Auschwitz, que conta a história verídica de Lale Sokolov, um prisioneiro que se apaixonou por uma mulher no temido campo. Morris passou três anos registrando seus relatos antes de ele morrer, em 2006. Em um de seus testemunhos, Sokolov apresentou à autora Cecilia "Cilka" Klein, uma jovem de 16 anos que precisou enfrentar inúmeros desafios para sobreviver.

Foi assim que nasceu A Viagem de Cilka, nova obra da neozelandesa, lançada no Brasil pela Editora Planeta. O livro, que mistura fatos reais com ficção, transforma a vida da jovem em um romance e traz uma perspectiva feminina do que aconteceu naquela época. Na narrativa, Cilka atravessa seu maior desafio: tentar sobreviver em meio a uma série de castigos físicos, trabalhos forçados, violências psicológicas e abuso sexual. Após ser libertada de Auschwitz, a garota é acusada pelo exército russo de colaborar com os nazistas. Então, tem início mais uma etapa de horror em sua vida, já que ela é levada para outro campo de concentração na Sibéria. Porém, dessa vez ela consegue contornar os problemas ao fazer amizade com uma médica e cuidar dos presos enfermos, tendo espaço até para encontrar o amor de sua vida.

 

 

 

A Viagem de Cilka representa a luta feminina pelo corpo e liberdade, além da resistência ao patriarcado e à opressão. A protagonista evidencia como as mulheres do mundo todo são fortes para enfrentar qualquer tipo de obstáculo. No posfácio, a escritora explica que, na vida real, após sua libertação, Cilka morou na Checoslováquia com seu marido até 2004, o ano de sua morte.

A seguir, confira a entrevista com Heather Morris:

Quais foram os processos de pesquisa sobre a vida e a história de Cilka? E como você combinou fatos com ficção?

Eu soube sobre a história de Cilka pela primeira vez com Lale, o Tatuador em Auschwitz, e vários outros sobreviventes do Holocausto que compartilharam suas memórias de Cilka em Birkenau. Lale me fez prometer que escreveria a história dela depois de escrever a dele. Já para ajudar na pesquisa de sua vida na Gulag de Vorkuta — prisão soviética —, envolvi um pesquisador profissional em Moscou que descobriu muitos documentos e testemunhos de outros prisioneiros.

Os amigos que fiz da cidade natal de Lale, na Eslováquia, começaram a pesquisar Cilka e sua vida no país depois de sua libertação, em 1956. Visitei o local em várias ocasiões e me encontrei com amigos e vizinhos que conheciam Cilka por muitas décadas e que compartilharam comigo o que sabiam sobre ela. Com os fatos da minha pesquisa e as histórias contadas por pessoas que conheciam a jovem, pude juntar essas informações e imaginar sua vida.

 

 

 

O livro retrata a história do Holocausto de uma perspectiva feminina. Por que isso é importante?

Duas pessoas que sobreviveram ao Holocausto não têm a mesma lembrança. Todos experimentaram esse momento de maneiras diferentes, trabalharam em diferentes áreas do campo, testemunharam e experimentaram situações com seus próprios olhos... A história de Cilka se difere da perspectiva de um homem por causa de seu abuso sexual.

Por muito tempo, o abuso sexual de mulheres presas durante o Holocausto não foi relatado, sendo ignorado por vários motivos. As meninas e mulheres, na maioria dos casos, não disseram nada por causa da vergonha que elas carregavam. Os historiadores, por sua vez, temiam que apresentar um componente feminino desviasse a atenção e banalizasse o Holocausto. A jornada de Cilka, portanto, quebra o tabu de fingir que estupro e abuso sexual devem ser abafados.

Por muito tempo, o abuso sexual de mulheres presas durante o Holocausto não foi relatado"
Heather Morris

De que maneira contar essa história agora transforma nossa compreensão atual sobre o passado?

Antes, por medo de ser um estigma, argumentou-se que a questão do estupro deveria ser deixada de lado. Porém, estamos aprendendo sobre o que aconteceu graças a mulheres que decidiram contar sobre seu passado — consequentemente, mudando o entendimento da história.

Ao contar a história de Cilka sobre o Holocausto e sua vida em uma prisão, devemos aceitar a vergonha de não dar voz às mulheres e por nunca reconhecermos os abusos que sofreram. Aconteceu, agora é hora de escrever sobre isso.

Heather Morris (Foto: Divulgação)

 

 

 

 

 

 

 

 

Alguns dos temas dos livros são coragem, amor e liberdade. Você acredita que estas são as palavras-chave na vida de alguém? 

Sim, eu acredito. E eu me apressaria em adicionar a palavra ESPERANÇA. Coragem, amor e liberdade só podem existir porque temos esperança de sobrevivência, de acordar no dia seguinte. Lale descreveu Cilka como a pessoa mais corajosa que ele já conheceu. Em seu caso, ele teve o luxo de se apaixonar em um campo de concentração e isso o ajudou a ter esperança de um futuro, dando-lhe coragem para fazer o que fosse necessário e tentar sobreviver.

Esse não era o mesmo caminho de Cilka. Foi seu forte senso de justiça e a necessidade de sobreviver para encontrar sua família que a mantinham acordando todos os dias durante duas prisões, totalizando 13 anos. Embora ela também tenha encontrado amor e vivido com um homem que a amava por mais de 40 anos, na maioria das vezes ela não era livre da mesma forma que Lale.

Coragem, amor e liberdade só podem existir porque temos esperança de sobrevivência"
Heather Morris

Qual foi o momento mais impressionante da sua escrita? E da leitura? Conte-nos um pouco sobre isso.

Ler sobre o abuso sexual na prisão me chocou e me horrorizou. Isso porque Cilka escolheu abuso e sobrevivência em vez da morte. Li documentos e testemunhos de outros prisioneiros em Vorkuta, esperando que o abuso fosse isolado e que Cilka pudesse ter escapado. Ela não conseguiu. Ela não poderia. No livro, eu tive a escolha de fazer dela a escrava sexual de muitos ou a propriedade de um só, já que não há como eu saber a verdade de fato.

Pelo que li, qualquer pessoa jovem e bonita provavelmente seria a propriedade de um administrador, protegida de abusos de outras pessoas. Cilka era jovem e bonita e eu queria desesperadamente que ela tivesse essa proteção, ser esposa de apenas um homem.

As descrições dos estupros vieram de testemunhos de mulheres corajosas que me contaram detalhes de sua vida. Eu reconheço e honro a bravura delas. Ao escrever essa história, eu estava honrando a coragem que elas testemunharam em uma jovem incrível.

Livro "A Viagem de Cilka", lançado no Brasil pela Editora Planeta (Foto: Divulgação)

 

A Viagem de Cilka
Heather Morris
Editora Planeta
Páginas: 304
Preço: R$ 49,90

*Com supervisão de Luiza Monteiro

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