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Covid-19: o que é “passaporte imunológico” e o que dizem os cientistas

coronavirus (Foto: reprodução)

 

Com o avanço da pandemia de Covid-19, alguns governos ao redor do mundo sugeriram a possibilidade da criação de um “passaporte imunológico”, que seria concedido àqueles que já foram contaminados pelo novo coronavírus e estão curados. A criação desse atestado parte da premissa de que quem já foi infectado pelo Sars-CoV-2 desenvolveu anticorpos para o microrganismo e, portanto, não pode ficar doente de novo.

Acontece que os cientistas ainda não sabem se nosso corpo é, de fato, capaz de desenvolver uma defesa prolongada ao novo coronavírus. “Algumas infecções nunca se repetem depois que você as contrai, como sarampo e varíola. Mas você pode obter muitas outras novamente, como gripe e tétano”, explica Sanjaya Senanayake, infectologista da Universidade Nacional Australiana, em um texto publicado no The Conversation.

O sistema imunológico e os anticorpos
Para compreender o debate acerca do tal “passaporte imunológico”, primeiro é preciso entender como funciona a produção de anticorpos no nosso organismo. 

Vamos lá: quando um vírus ataca sua primeira célula do corpo, a partícula infectada emite diversos sinais químicos que ativam as células imunológicas para combater o invasor. Apesar desse mecanismo ser rápido, ele não é direcionado ao agente causador da infecção. Funciona mais como um alerta geral de que algo errado está acontecendo. 

É aí que o chamado sistema imunológico adaptativo prepara seu exército especializado, os anticorpos. “O corpo produz diferentes tipos de anticorpos para responder a diferentes partes do vírus, mas apenas alguns têm a capacidade de impedir que o microrganismo entre nas células, os chamados ‘anticorpos neutralizantes’", esclarece Senanayake.

Cientistas provam que novo coronavírus evoluiu naturalmente (Foto: Divulgação)

 

São justamente esses anticorpos que ficam guardados na “memória” do sistema imunológico. Dessa forma, quando somos infectados novamente pelo mesmo microrganismo, o corpo pode apenas enviar esse “exército especializado” e conter o vírus antes de ficarmos doentes.

Vale pontuar que nosso sistema de defesa também também produz as células T, que reconhecem e eliminam outras células infectadas pelo vírus. Esse mecanismo é chamado de imunidade celular e também é muito importante para prevenir novas infecções.

E o novo coronavírus?
Um estudo conduzido pela Universidade Tsinghua, na China, analisou amostras sanguíneas de 14 pacientes com Covid-19 que apresentaram sintomas relativamente leves da doença 14 dias após terem alta hospitalar. Segundo o artigo, publicado na edição de maio da revista Immunity, 13 dessas pessoas apresentaram altos níveis de anticorpos contra o Sars-CoV-2.

A descoberta foi comemorada, porque corrobora hipóteses criadas a partir de estudos sobre um outro tipo de coronavírus, o Sars-CoV-1. Esse é o microrganismo por trás da Sars, doença que surgiu na China em 2002 e se espalhou pelo mundo, infectando mais de 8 mil pessoas. Uma pesquisa publicada em 2008 no The Journal of Immunology mostrou 90% dos sobreviventes da Sars têm anticorpos funcionais neutralizantes Sars-CoV-1, e cerca de 50% apresentam forte resposta dos linfócitos T, outra “arma” dos sitema imunológico.

 

“Estas observações reforçam a confiança em uma visão simples de que se espera que a maioria dos sobreviventes de Covid-19 tenha anticorpos protetores”, afirmam os especialistas Daniel Altmann, Daniel Douek e Rosemary Boyton, em um comentário publicado no The Lancet. O trio, entretanto, ressalta que essas evidências não bastam para embasar a criação de “passaportes imunológicos”.

As ressalvas
De acordo com os especialistas, ainda é muito cedo para sabermos se aqueles que já foram infectados pelo Sars-CoV-2 se tornarão imunes a ele. “A maioria desses estudos mostra que as pessoas que se recuperaram da infecção têm anticorpos para o vírus”, afirmam porta-vozes da Organização Mundial da Saúde (OMS) em um comunicado divulgado no fim de abril. “No entanto, algumas dessas pessoas têm níveis muito baixos de anticorpos neutralizantes no sangue, sugerindo que a imunidade celular também pode ser crítica para a recuperação.”

Além disso, os pesquisadores não sabem ao certo por quanto tempo essa suposta imunidade dura. Cheng Dong, que participou do estudo da Universidade Tsinghua, contou em entrevista ao site Live Science que os pacientes só foram monitorados durante 14 dias após terem alta. Isso significa, portanto, que pouco tempo depois eles podem ter “perdido” os anticorpos que desenvolveram contra a Covid-19.

Partículas do novo coronavírus tentando infectar o citoplasma da célula (Foto: Fiocruz)

 

Isso já foi observado anteriormente. Um estudo publicado na revista Epidemiology and Infection em 1990 descobriu que a infecção por um outro tipo de coronavírus, o 229E, gerava imunidade protetora contra o microrganismo por cerca de um ano; depois desse período, as pessoas estavam suscetíveis a se infectar de novo.

“Dadas essas informações sobre outros coronavírus, é provável que a infecção pelo Sars-CoV-2 forneça alguma imunidade a uma segunda infecção”, pondera Sanjaya Senanayake. Resta saber, de acordo com o especialista se todos os infectados se tornam imunes e quanto tempo dura essa proteção. 

A questão social
Outro aspecto a ser considerado, segundo os especialistas, é o social. Alguns pesquisadores supõem que os tais “passaportes” podem levar pessoas a se infectarem de propósito para se tornarem imunes e poderem sair de casa — o que pode ser bastante arriscado.

Como explica a especialista em saúde pública Alexandra Phelan em um comentário publicado no início do mês no The Lancet, os “passaportes” de imunidade imporiam uma restrição artificial a quem pode ou não sair de casa. Isso, por sua vez, seria apelativo principalmente para quem não tem condições de “bancar” o período fora do trabalho. “Ao replicar as desigualdades existentes, o uso de passaportes de imunidade exacerbaria os danos infligidos pela Covid-19 a populações já vulneráveis”, pontua a especialista.

O comportamento também representaria um risco à saúde daqueles que têm contato com os donos de “passaportes de imunidade”. Afinal, ainda que imunes, essas pessoas poderiam transmitir o novo coronavírus por meio do toque ou mesmo de suas roupas, por exemplo. “Em países sem acesso universal a cuidados de saúde, os mais incentivados a ‘procurar’ infecção também podem ser aqueles que são incapazes ou hesitam em procurar atendimento médico devido ao custo e ao acesso discriminatório”, argumenta Phelan.

 

Além disso, a criação desses certificados poderia servir de pretexto para governos aliviarem as medidas de distanciamento social — o que teria consequências devastadoras. Segundo a especialista, “os ‘passaportes de imunidade’ (...) minariam o direito à saúde dos indivíduos e da população por meio dos incentivos perversos que eles criam”.

Tendo tudo isso em vista, os especialistas defendem que, nos próximos meses, as recomendações para conter a Covid-19 continuem as mesmas: distanciamento social e ampla testagem da população. “Neste ponto da pandemia, não há evidências suficientes sobre a eficácia da imunidade mediada por anticorpos”, afirma a OMS. “As pessoas que assumem que estão imunes a uma segunda infecção podem ignorar as recomendações de saúde pública.”

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