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“O Corvo” de Edgar Allan Poe por Machado de Assis: muito além da tradução

Tradução de Machado de Assis de O Corvo confere uma identidade nacional à obra de Edgar Allan Poe (Foto: Creative Commons/Flickr)

 

Nova Iorque, 29 de janeiro de 1845. A noite avança sobre o dia quando o New York Evening Mirror, um dos maiores jornais da cidade, começa a ser distribuído. Seria uma edição histórica: nela, vieram impressos, pela primeira vez, os 108 versos do poema narrativo O Corvo (The Raven), de Edgar Allan Poe (1809-1849). Desde então, a obra vem assombrando geração após geração. Traduzida para quase todos os idiomas e adaptada para as mais diversas linguagens, a história do amante enlutado que confronta uma ave misteriosa sobre sua amada Lenora continua a ser redescoberta, reinterpretada.

 

 

 

Enquanto vivia, Poe não chegou a testemunhar tamanho êxito. É verdade que O Corvo causou relativo impacto ao ser publicado; mas o poema só ultrapassou as fronteiras do país natal do autor, os Estados Unidos, após a sua morte. E isso aconteceu graças, sobretudo, aos esforços de Charles Baudelaire, que o traduziu e recomendou à classe artística de sua época.

No entanto, já no ensaio A Filosofia da Composição (1846), Poe demonstrou ter plena consciência dos efeitos que a obra poderia causar em seus leitores. Basta lembrarmos da célebre frase “Prefiro começar com a consideração de uma emoção [ou de um “efeito”, em outras traduções]", no início do texto.  

Machado x Pessoa
Trinta e sete anos depois da publicação, o efeito pretendido por Poe atingiu em cheio o nosso Machado de Assis. Data de 1883 a célebre versão do Bruxo do Cosme Velho de The Raven para o português – 41 anos antes de outra famosa tradução para a nossa língua, feita pelo poeta português Fernando Pessoa (publicada em 1924).

Machado de Assis (Foto: Wikipedia Commons)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quem conhece as duas versões, sabe: são muito diferentes. Sequer parecem ter a mesma origem. Há quem condene a tradução de Machado de Assis como inferior. Considera-se, também, que ela tenha sido feita de “segunda mão”, ou seja, realizada a partir da versão francesa de Baudelaire – seria uma tradução da tradução. Essa hipótese é descartada por diversos pesquisadores, que utilizam alguns indícios para contestá-la – o mais contundente sendo o fato de Machado ler em inglês. O autor dessa coluna se coloca neste grupo: entende que a tradução foi realizada, sim, diretamente da obra original de Poe.

Em todo caso, já nos primeiros versos saltam aos olhos as diferenças nas versões. Enquanto, em Poe, temos:

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore…

Fernando Pessoa os traduz da seguinte forma:

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais…

Ao passo que Machado opta por:

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga…

Nos versos restantes, encontramos a mesma tônica, o que revela escolhas muito diferentes. Enquanto o poeta português procura reproduzir a métrica exata – o som e o sentido, a mágica do verso – de Poe, Machado altera significativamente o ritmo e não verte os padrões sonoros do original. É compreensível que se condene a versão machadiana como falha, menor.

Muito além da tradução
No entanto, uma análise mais cuidadosa revela que, nela, há uma operação de outra magnitude. Não se trata de traduzir, somente. Ao verter Poe para o português, Machado de Assis parece desafiar os limites entre tradução, apropriação, reescrita ou transcriação. E o faz muito antes de Jorge Luis Borges, André Lefevere, os irmãos Campos e outros importantes estudiosos da tradução debruçarem-se sobre este campo literário.

 

 

 

Encontramos essa investigação aprofundada no ensaio The Raven, by Machado de Assis, de autoria do pesquisador e crítico literário Sergio Luiz Prado Bellei. De acordo com ele, há “método e propósito” nas subtrações, adições, distanciamentos e outras mudanças engendradas por Machado. Porque tais desvios correspondem não somente à intenção de verter um poema para outra língua, mas ao “projeto estético” então vigente do autor brasileiro.

Absoluta angústia
Para entendermos este movimento, retornemos à Filosofia da Composição. No texto, Poe explicita as duas ideias centrais de seu poema: o “amante lamentando a morte da amada e o Corvo repetindo continuamente a palavra ‘nevermore’”. Ao escolher “uma criatura não racional capaz de falar” como interlocutora desse amante, Poe cria um mecanismo retórico para trazer à tona as piores angústias do rapaz. Porque, ao perceber que a resposta é sempre “nevermore” (nunca mais, em português), o pobre homem vai intensificando as perguntas, lentamente transportando-se para o território da superstição, então do desespero, e então da absoluta angústia. 

Na versão de Machado, tudo muda. Enquanto, no original, o amante enlutado surpreende-se ao ouvir a ave falar, discursar (Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly), na tradução, a descoberta é de que a ave entende e responde (Vendo que o pássaro entendia / A pergunta que lhe eu fazia / Fico atônito, embora a resposta que dera…).

Em Poe, o amante apresenta-se como alguém bem racional – tanto que, no início, ele parece se alegrar com a entrada da ave em seu aposento (beguiling my sad face into smiling, ou Fez sorrir minha amargura, na versão de Fernando Pessoa). Somente aos poucos ele vai sucumbindo à tortura diante da única resposta para as suas perguntas.

Já em Machado, o rapaz logo apresenta-se mais grave e sério. Enquanto, no original, o amante se empenha em adivinhar (engage in guessing) o significado do estribilho corvejado, na versão machadiana, ele devaneia, medita, pondera.

Um mensageiro sobrenatural
Mas é no próprio corvo que encontramos o maior contraste entre o original e a tradução. Em Machado, a ave é, desde o início do poema, simbólica, uma mensageira sobrenatural daquilo que não se deve dizer; já Poe pretendeu que seu corvo assim se revelasse “somente no último verso da última estrofe”. O trecho stock and store (Vozes usuais, também na versão de Pessoa), que se refere à palavra repetida pela criatura, transforma-se em toda a ciência / Que ele trouxe da convivência / Com algum mestre infeliz e acabrunhado. Há uma clara mudança de ênfase, e outros exemplos revelam isso.

A ave de Machado é fundamental para compreendermos a operação literária em questão, e ela transcende a tradução. De acordo com Sergio Luiz Prado Bellei, a versão machadiana “tende à universalização por colocar, na cena narrativa, o drama da condição humana” diante da ausência de sentido da existência. Maior no tamanho e na ênfase, o corvo se apresenta como emblema desse drama, endereçando sua insuportável mensagem não somente ao amante de luto, mas à humanidade.

 

 

 

Por tudo isso, é possível afirmar que Machado não somente traduz, mas apropria-se do poema de Poe. A versão para The Raven está em Ocidentais, antologia poética que contém traduções de obras de Shakespeare e de La Fontaine. Neste conjunto, notamos a reconhecida intenção do autor brasileiro de dar cor local à tradição literária ocidental – constituindo-se, assim, uma possível identidade literária nacional, projeto tão caro a ele.

Seja como for, Machado foi tocado pelos efeitos cuidadosamente pretendidos por Edgar Allan Poe. E, ao tocar-se, filtrou esses efeitos, refratou-os, ampliou-os em sua versão para a língua portuguesa. Sorte nossa; afinal, 174 anos depois daquele anoitecer nova-iorquino, hoje temos dois magníficos espécimes da “ave do medo” com que nos deleitar.

*Oscar Nestarez é autor e pesquisador da literatura de horror. Publicou "Poe e Lovecraft: Um Ensaio Sobre o Medo na Literatura" (Livrus), a coletânea de contos "Horror adentro" (Kazuá) e o romance "Bile negra" (Pyro), que recebeu o prêmio de melhor narrativa longa de horror da Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror (ABERST).

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