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Estudo mapeia como Sars-CoV-2 afeta outros órgãos além do pulmão

Estudo mapeia danos do Sars-CoV-2 em outros órgãos além do pulmão (Foto: Viktor Forgacs/Unsplash)

 

Logo que começou a atender pacientes graves de Covid-19 no Centro Médico Irving da Universidade Columbia, em Nova York, a cardiologista Aakriti Gupta percebeu que a doença é muito mais do que uma enfermidade respiratória. “Observei que os pacientes estavam apresentando muitos coágulos, altos índices de açúcar no sangue mesmo não tendo diabetes, e muitos tinham danos no coração e nos rins”, relata Gupta, em comunicado a imprensa.

Para entender esses possíveis outros efeitos da infecção pelo Sars-CoV-2, a médica se uniu a pesquisadores de outras instituições acadêmicas e de saúde dos Estados Unidos para analisar estudos já publicados e as observações já feitas por especialistas em seus atendimentos. O resultado foi uma pesquisa, publicada nesta sexta-feira (10) na revista Nature Medicine, considerada a revisão mais completa sobre os efeitos extrapulmonares da Covid-19.

“Medicos precisam pensar na Covid-19 como uma doença multissistêmica”, comenta Gupta. A seguir, confira os principais achados do estudo:

Coágulos sanguíneos
Cientistas especulam que o maior número de trombose em pacientes infectados pelo novo coronavírus se deva ao fato de que o vírus ataca células presentes nos vasos sanguíneos. A resposta do organismo para isso é a inflamação, que leva a formação de coágulos, grandes e pequenos. O risco é que eles podem se desprender do caso onde se formaram e viajar pelo corpo até pararem em um órgão, o que pode causar complicações sérias e até a morte.
Médicos de Columbia já estão conduzindo testes clínicos randomizados para investigar a dose e o momento ideal de aplicar medicamentos anticoagulantes em pacientes com Covid-19.

Inflamação
Outro efeito perigoso do Sars-CoV-2 é uma superestimulação do sistema imunológico, que pode levar a uma inflamação descontrolada — e letal — no organismo. Até agora, a droga que se mostrou mais eficaz para conter essa reação foi o corticoide dexametasona. “Cientistas no mundo todo estão trabalhando em um ritmo sem precedentes para entender como o vírus se apropria dos mecanismos biológicos protetores [do organismo]”, diz o hematologista Kartik Sehgal, da Faculdade de Medicina da Universidade Harvard, que também participou do estudo.

Coração
Não é só por meio da formação de coágulos que o novo coronavírus ameaça o órgão que bombeia sangue para o corpo: ele também causa danos por si só no coração, mas os mecanismos pelos quais isso acontece ainda não são conhecidos, de acordo com Aakriti Gupta.
As principais hipóteses são de que o músculo cardíaco sofre danos pela inflamação sistêmica e pela liberação de citocinas, células imunológicas cuja função é eliminar células infectadas, que em excesso são prejudiciais — e é justamente o que se observa em casos graves de Covid-19.

Insuficiência renal
Os rins também podem ser acometidos pelo novo coronavírus. Nesse caso, os especialistas suspeitam que o motivo seja porque esses órgãos encontram uma alta quantidade da enzima ACE2, cujo receptor o Sars-CoV-2 utiliza para infectar as células. “Entre 5% e 10% dos pacientes precisaram de diálise. Esse número é muito alto”, destaca Gupta.
Embora ainda não seja possível dizer se esses efeitos são de longo prazo, os autores suspeitam que, sim, muitas pessoas curadas da Covid-19 vão precisar seguir fazendo procedimentos que ajudem no funcionamento real. “Estudos futuros que acompanhem pacientes que tiveram complicações durante a hospitalização por Covid-19 serão cruciais”, observa o cardiologista  Mahesh Madhavan, também da Universidade Columbia.

Efeitos neurológicos
Dor de cabeça, tontura, fadiga e perda de olfato podem acometer um terço dos pacientes. Já derrames, por exemplo, atingem até 6% dos infectados; e confusão mental (também chamada de delirium) acontece entre 8% e 9% dos casos. “Pacientes podem ficar intubados por duas a três semanas; e um quarto demanda ventilação por 30 dias ou mais”, pontua Gupta.
Para Madhavan, o novo coronavírus é realmente incomum e “é difícil não dar um passo atrás e se impressionar pelo número de manifestações que ele tem no corpo humano”, segundo o especialista.

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