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Livro traz fatos históricos da França por meio da gastronomia

Amor por queijos instigou autor a escrever livro que narra a história da França por meio da gastronomia (Foto: Jez Timms/Unsplash)

 

Pense na França. O que veio à sua mente? Certamente algum alimento ou bebida, aposto. Não é para menor: o país é um dos principais centros da gastronomia mundial e, ouso dizer, o principal do mundo ocidental. 

Como muitos de seus conterrâneos, o francês Stéphane Hénaut cresceu amando os quitutes tradicionais de sua pátria. “Meu amor pela gastronomia começou quando eu era jovem, quando pude provar a culinária incrível da minha mãe”, lembra, em entrevista a GALILEU. “Até hoje eu acredito que ninguém faz um mousse de chocolate melhor do que ela.”

Seu amor maior, entretanto, sempre foram os queijos — não por acaso se tornou queijeiro profissional. Hénaut, que trabalhou em restaurantes na França e na Inglaterra, é gerente de uma fromagerie (queijaria) em Berlim, na Alemanha. “O incrível do queijo é que ele existe em diversos sabores e texturas. Nunca se para de aprender sobre novos produtos e de se surpreender com eles”, destaca.

 

Também foi graças ao queijo que o francês se inspirou para se aventurar em uma nova área: a literatura. Em parceria com sua esposa, a historiadora norte-americana Jeni Mitchell, Hénaut publicou A deliciosa história da França, em 2018. A obra, que chegou ao Brasil em 2020 pela editora Seoman, não fala apenas sobre o alimento derivado do leite, mas também sobre os mais variados pratos franceses — e como eles podem ajudar a contar a história do país.

Na entrevista a seguir, Henaut fala sobre seu processo criativo, a inusitada ligação entre Napoleão Bonaparte e crepes e ainda dá dicas para quem quer aprender sobre a França por meio da gastronomia.

Como vocês tiveram a ideia de contar a história da França com base em sua culinária?
Minha esposa e eu começamos a escrever este livro logo depois que nos mudamos para a França. Eu estava tentando transmitir a ela o quão incríveis eram alguns dos queijos que eu trazia para casa, apesar do cheiro muito forte de alguns deles. Então, para “vender” a ideia, comecei a contar a história de cada um deles e seu forte vínculo com a região e as pessoas que os criaram. Deu tão certo que, pouco depois, nos pegamos pesquisando sobre as histórias de tudo o que estávamos comendo e bebendo. Tempos depois, resolvemos transformar nossa curiosidade gastronômica em livro.

Começamos a escrever alguns capítulos por conta própria, mas logo percebemos que tínhamos muitas histórias e que, se as colocássemos em ordem cronológica, não apenas contaríamos curiosidades sobre diferentes comidas francesas, mas também sobre a própria história da França.

Como funcionou a pesquisa? Vocês desenvolveram um “método especial” ou algo do tipo?
Muitas vezes partimos de histórias que havíamos escutado de amigos, familiares, colegas de trabalho ou até clientes. Então, partíamos para a verificação das narrativas em textos acadêmicos, bibliotecas e livros. Trabalhávamos em um capítulo e depois passávamos para outro.

A parceria entre mim e minha esposa funcionou muito bem, eu trouxe meus conhecimentos sobre comida e cultura francesa, e ela trouxe seu conhecimento de história e um rigor acadêmico.

Quanto tempo demorou para vocês finalizarem?
Quando começamos a escrever, não percebemos quanto trabalho seria. Acho que se tivéssemos percebido isso, talvez nunca tivéssemos começado [risos]. Começamos a pensar no livro em 2011 e terminamos de escrevê-lo em 2017, embora a maior parte dos escritos tenha ocorrido em 2016 e 2017.

Stephane Henaut e Jeni Mitchell (Foto: Divulgação)

 

 

Na obra, vocês começam contando a história dos gauleses e terminam falando sobre os Estados Unidos. Algum motivo especial para essas escolhas?
As crianças francesas costumam aprender na escola que seus ancestrais são os gauleses, então este pareceu um ponto de partida natural. Além disso, mencionando os gauleses poderíamos falar sobre vinho e uma das maiores exportações culturais da França: [os quadrinhos do] Asterix. Terminar falando dos Estados Unidos também pareceu natural para nós, um casal franco-americano.

 

Eu sei que a França tem muitos tipos diferentes de queijo, mas no livro parece que vocês se dedicaram especialmente ao Camembert. Por quê?
Não mencionamos apenas o Camembert, falamos de alguns queijos de cabra como Valencay e Chabichou, também temos um capítulo sobre o famoso queijo azul Roquefort, e sobre o Brie de Meaux, que é apelidado de “rei dos queijos, e queijo dos reis”. Mas é verdade que temos um longo capítulo sobre o Camembert, talvez porque seja um produto que se associa imediatamente à França — mas também porque ele tem uma história franco-americana complicada que ilustra perfeitamente a relação que a França tem com os Estados Unidos.

A história envolvendo Napoleão Bonaparte, Rússia e crepe é surpreendente. Você a resumiria para que nossos leitores tenham um “gostinho” do livro?
Napoleão pode ser uma figura muito controversa na França hoje, mas há muitas lendas interessantes sobre ele, o que nos ajudou a escrever sobre uma das eras mais importantes e destrutivas da história francesa.

Napoleão era um homem muito supersticioso e, antes de sua campanha catastrófica da Rússia em 1812 [as Guerras Napoleônicas, cujo intuito era expandir o domínio dos franceses], ele tomou a decisão de cozinhar alguns crepes. Na França, acreditamos que, quando alguém vira um crepe na panela sem quebrá-lo ou estragá-lo, a pessoa terá sorte no próximo ano — caso contrário, o desastre se aproxima.

Uma vez Napoleão resolveu cozinhar crepes e, antes de virar o primeiro, disse: “Se eu conseguir, vencerei minha primeira batalha”, e de fato o crepe pousou perfeitamente na panela. O ex-governante, então, fez o mesmo com mais três crepes e, em todas as vezes, funcionou. Quando chegou ao quinto crepe, entretanto, a massa caiu no chão — e, apesar desse mau presságio, Napoleão decidiu invadir a Rússia.

É verdade que Napoleão e primeiro ganhou uma série de batalhas e acabou invadindo Moscou. Entretanto, logo após chegar à cidade, percebeu que os russos não tinham intenção de se render. Foi aí que, percebendo que estava na Rússia no início do inverno e sem suprimentos para seu enorme exército, disse: "Foi o quinto crepe!".

Existe alguma história que você achou particularmente interessante, mas não está no livro? Qual?
Fiquei muito interessado pelo “chef anarquista” Joseph Favre, que fundou a primeira união de chefs e escreveu um enorme dicionário de culinária, que foi a base do Larousse Gastronomique. Ele foi anarquista durante muito tempo e, segundo seus escritos, cozinhou um pudim para uma reunião de pensadores anarquistas famosos da época.

Segundo o cozinheiro, era difícil agradar essas pessoas, que discordavam não apenas sobre política, mas também sobre culinária. Ainda assim, Favre disse que todos concordavam com pelo menos uma coisa ao fim das reuniões: “O pudim estava delicioso”.

Se eu quiser aprender mais sobre a França e apreciar uma boa bebida, que tipo de vinho devo comprar da próxima vez que for ao mercado?
Se você perguntar a uma pessoa francesa qual é o seu vinho favorito, esteja preparado para obter uma resposta completamente subjetiva com base na região que essa pessoa chama de “lar”. Eu sou de Nantes, próximo ao estuário do Loire, então minha resposta seria: compre um Muscadet produzido localmente caso esteja procurando por um vinho mineral para acompanhar seus peixes ou frutos do mar. Agora, se você está comendo queijo de cabra ou queijos macios, adquira um Menetou Salon no Vale do Loire: é um ótimo branco Sauvignon com sabor fresco e frutado, com notas cítricas. Já se seu desejo for um tinto para combinar a carne, recomendo o Chinon. Ele é feito na área em torno do antigo castelo medieval de Chinon, é um vinho leve, cheio de delicadeza e alegria.

 (Foto: Divulgação)

 

Agora, digamos que eu queira aprender mais sobre a França a partir de uma única refeição. Se você pudesse preparar um menu que me ensinasse um pouco de tudo, qual seria?
Por que não começar com uma salada simples e um bom vinagrete? Assim você poderá aprender que, na Idade Média, os franceses acreditavam que o vinagre poderia curar qualquer doença, incluindo a peste bubônica. Como prato principal recomendo um clássico poule au pot [frango cozido ou frango de panela, em português]. Será uma boa oportunidade para provar um dos pratos mais emblemáticos da França, imortalizado pelo popular rei Henrique IV, que uma vez prometeu aos súditos "um frango em cada panela".

Ah, um prato de queijo também deve fazer parte de um menu francês. Então, que tal um pouco de queijo de cabra, Roquefort e Brie de Meaux? Todos com histórias ricas. Por fim, uma mousse de chocolate aerada deve finalizar essa refeição gloriosa. Este será o momento de descobrir como um produto icônico da América Latina apareceu na culinária da França.

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