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'Atraso no 5G pode causar exclusão econômica global'

'Atraso no 5G pode causar exclusão econômica global' Por Bruno Romani São Paulo - Cristiano Amon, 50, está testemunhando de perto a quarta transição de geração de tecnologia de redes de celulares. Para ele, a chegada do 5G, porém, não é a mais importante apenas pelo fato de ser presidente global de uma das principais empresas do ecossistema de telefonia móvel, a americana Qualcomm, que produz os chips da maioria dos smartphones no mundo. O paulista de Campinas, que está desde 1995 na empresa onde se tornou presidente em 2018, explica que o 5G não se trata apenas de uma ferramenta para aumentar as velocidades de conexões dos telefones. A tecnologia seria um pilar de transformação para diferentes segmentos da economia global - o que significa a ampliação de desigualdades econômicas para os que a adotarem com atraso. Ao jornal O Estado de S. Paulo, ele analisou a atuação do Brasil para adotar o 5G - para ele, estamos atrasados, mas ainda é possível correr atrás do prejuízo. Falou também do papel do 5G na disputa entre EUA e China, do papel da Qualcomm na guerra comercial entre os países e do futuro da empresa num cenário global de retração de investimentos e queda no consumo. Confira. O Brasil era visto como um dos países líderes no desenvolvimento do 5G. Porém, atualmente, nem o leilão de frequências é capaz de realizar. O que houve? Em parte, houve uma aceleração na adoção da tecnologia. O cronograma de operadoras e empresas do ecossistema de EUA, Coreia, Japão e China previa o lançamento em 2020, mas isso aconteceu em 2019. Sem quase nenhuma exceção, o 5G está sendo implantado primeiro nos países desenvolvidos, o que acho uma pena. A situação do Brasil foi a mesma da França: quem não estava dentro do processo de aceleração e não conduziu seus leilões de frequência foi pego pela pandemia e aí atrasou. O 5G anunciado por Claro e Vivo, que usa tecnologia DSS, é uma 'gambiarra'? Não! Essa tecnologia está sendo usada em vários países. O 5G foi criado para ter novas frequências e converter as frequências já existentes. Todas as redes de 5G vão ter o que chamamos de 'bolo de noiva': as frequências 4G convertidas, a banda média e a banda milimétrica. Países começam de forma diferentes. Os EUA começaram na banda milimétrica; a China na banda média. Eventualmente todos terão todos esses níveis. Qual é o impacto para o Brasil por estar atrasado com a adoção da tecnologia? Quando o 4G apareceu, os EUA foram os primeiros a montar uma rede nacional de 4G. Enxergou-se que era possível ter na palma da mão um computador com acesso à banda larga. Em função disso, várias empresas da economia digital foram criadas nos EUA, como Facebook, Instagram, Uber e outras. A Europa, que era líder em wireless na época do 3G, perdeu a liderança e viu várias dessas empresas da economia digital aparecerem nos EUA. Com o 5G, ninguém quer ficar para trás, pois a tecnologia é mais abrangente e os países percebem o seu valor estratégico. Historicamente, a cada nova geração de redes móveis, o Brasil preferiu esperar a tecnologia se tornar totalmente desenvolvida para chegar a um custo acessível. Talvez, valha a pena repensar isso. Nesse contexto, como a Qualcomm enxerga a disputa entre EUA e China e seus respectivos efeitos na adoção do 5G? Se você tem uma tecnologia cujo único papel é aumentar a velocidade dos smartphones, você tem uma certa discussão. Se você olhar para essa tecnologia como parte do sistema de TI do setor elétrico, incluindo usinas nucleares, a conversa é outra. Então, é natural que o 5G apareça nas discussões. Como a disputa pode ter impactos para a empresa? A Qualcomm é um agente de estabilidade entre os dois países. As ambições das empresas chinesas, como Xiaomi e Oppo, é crescer globalmente. Então, a China precisa de parceiros que tenham acesso a esses mercados. Para os EUA, quanto mais chips a Qualcomm vender, melhor. Assim, a balança comercial vai na direção que os EUA querem. Quanto à propriedade intelectual, que é sempre um tópico de discussões, temos um modelo de licenciamento e nosso clientes na China pagam por isso. A tecnologia costuma refletir sociedades. Em um País como Brasil, o 5G pode amplificar as desigualdades? O 5G pode causar exclusão econômica entre países, e isso se refletirá nas pessoas. A agricultura, por exemplo, setor no qual o Brasil é líder, será transformada pelo 5G. Você passará a ter diferenças nos custos e na produtividade. Muitos países que não são competitivos hoje podem se tornar. Ou, pelo menos, se tornarem independentes. Assim, quem não tiver acesso a essas ferramentas poderá não participar do setor produtivo. Dado o pacote de incertezas econômicas atuais, como a empresa consegue traçar uma estratégia para o futuro? O mercado de celulares obviamente caiu, em alguns mercados até 30%. Por outro lado, a pandemia gerou uma nova onda de crescimento do setor de telecom. Há uma aceleração de transformação digital. Assim, temos aumentado nossos investimentos. Reiteramos nossa projeção de termos entre 175 milhões e 225 milhões com 5G vendidos em 2020.

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