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Conheça John Tyndall, pioneiro nos estudos sobre mudanças climáticas

John Tyndall, o físico irlandês que ajudou a criar as ciências climáticas (Foto: Wikimedia Commons)

 

É surpreendente que o cientista irlandês John Tyndall, nascido há 200 anos, em 2 de agosto de 1820, não seja mais conhecido. Isso apesar da existência do Centro Tyndall de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas, do Instituto Nacional Tyndall e da cúpula de Pic Tyndall em Matterhorn, nos Alpes. Existem até vários montes Tyndall, geleiras Tyndall e crateras Tyndall na Lua e em Marte.

A partir disso, você poderia supor que ele era um cientista significativo e um notável alpinista. No entanto, devido a circunstâncias infelizes, ele não é um nome familiar.

 

Em 1859, Tyndall mostrou que gases como dióxido de carbono e vapor de água podem absorver calor. Sua fonte de calor não era o Sol, mas a radiação de um cubo de cobre contendo água fervente. Em termos modernos, essa era a radiação infravermelha — exatamente como a que emana da superfície da Terra.

Trabalhos anteriores haviam mostrado que a temperatura da Terra estava mais alta do que o esperado, o que foi atribuído à atmosfera atuando como isolante. Mas ninguém conhecia a explicação que chamamos hoje de efeito estufa — gases na atmosfera retendo o calor.

O que Tyndall fez foi descobrir e explicar esse mecanismo. Ele escreveu: “Assim, a atmosfera admite a entrada do calor solar; mas desacelera sua saída, e o resultado é uma tendência a acumular calor na superfície do planeta."

 

Ele percebeu que qualquer mudança na quantidade de vapor d'água ou dióxido de carbono na atmosfera poderia mudar o clima. Seu trabalho, portanto, estabeleceu uma base para nossa compreensão das mudanças climáticas e da meteorologia.

Tyndall não foi, no entanto, o primeiro a fazer essa ligação climática. Esse prêmio foi concedido à americana Eunice Foote, que, usando a luz solar, mostrou em 1856 que o dióxido de carbono poderia absorver o calor. Ela sugeriu que um aumento no dióxido de carbono resultaria em um planeta mais quente.

Pesquisas sugerem que Tyndall desconhecia seu trabalho. Sem dúvida, ele ficaria surpreso ao descobrir que uma mulher amadora o derrotara com uma demonstração geral da absorção de calor pelo dióxido de carbono. Para seu descrédito, ele não acreditava que as mulheres possuíam as mesmas habilidades criativas na ciência que os homens.

 

Tyndall fez muitas outras descobertas em campos diversos da física e da biologia. Ele construiu sua reputação inicial no obscuro tópico do diamagnetismo, a fraca repulsão de substâncias por um ímã. Isso o levou ao conhecimento de pessoas influentes, como o físico Michael Faraday.

Dentro de alguns anos, ele foi membro da Royal Society, o corpo científico mais prestigiado da Grã-Bretanha, e professor de filosofia natural na Royal Institution, onde permaneceu pelo resto de sua carreira científica.

Logo ele estava trabalhando para entender a estrutura e o movimento das geleiras. Depois disso, veio o trabalho sobre a absorção de calor pelos gases e, em seguida, a ação da luz em causar mudanças químicas. No processo, Tyndall explicou por que o céu é azul — a luz azul é mais espalhada pelos gases no céu do que por outras cores, devido ao seu comprimento de onda curto.

Ele também descobriu a tindalização — uma técnica bacteriológica de esterilização — ao realizar experimentos com o biólogo francês Louis Pasteur para apoiar a teoria de que os germes podem causar doenças. Essa linha de pesquisa levou à invenção de um respirador para bombeiros, apesar de Tyndall nunca ter patenteado. Ele se comprometeu com a pesquisa fundamental, confiante de que outros gerariam aplicações úteis.

 

Ciência versus religião

Como intelectual público, Tyndall foi uma das maiores vozes que defendiam uma explicação científica para o mundo natural e para a própria vida, um naturalismo científico. Nisso, religião e teologia não tinham lugar. Ele deu a declaração mais severa dessa posição em seu famoso, de fato notório, Discurso de Belfast, em 1874.

No Ulster Hall, ele esbravejou:

“Reivindicamos, e extrairemos da teologia, todo o domínio da teoria cosmológica. Todos os esquemas e sistemas que infringem o domínio da ciência devem, na medida em que o fazem, submeter-se ao seu controle e abandonar todo pensamento de controlá-lo.”

Mas ele nunca foi de menosprezar o papel da religião. A ciência, para ele, forneceu um conhecimento confiável do mundo. A religião atendia às necessidades emocionais das pessoas, um papel que ele pensava que poderia ser substituído pela poesia.

 

Representando o passado

Tyndall não se casou até os 50 anos, mas sua amada Louisa o matou por acidente em 1893 — dando a ele uma overdose do remédio errado no escuro. Ela então reuniu grandes quantidades de material para escrever sua biografia, mas morreu 47 anos depois com ela incompleta.

Seus rascunhos, assim como os diários de Tyndall, cadernos de laboratório e milhares de cartas, são mantidos no Royal Institution, em Londres. Toda a sua correspondência está atualmente sendo publicada pelo Tyndall Correspondence Project. Eu pude usar o material ao escrever minha biografia The Ascent of John Tyndall, que será lançada em brochura em seu aniversário.

A falha de Louisa em escrever uma biografia é parte da razão pela qual ele não é mais conhecido, mas também teve o infortúnio de morrer à beira de descobertas revolucionárias da física, como a teoria quântica e a relatividade. Em certo sentido, ele representou o passado.

 

Hoje, porém, a pesquisa climática é mais importante e premente do que nunca — e os cientistas estão fazendo grandes progressos. Estou certo de que Tyndall ficaria satisfeito ao descobrir que seu trabalho fundamental se mostrou tão importante.

No seu tempo, no entanto, poucas pessoas fizeram a conexão entre a queima de combustíveis fósseis e o possível aquecimento global. Tyndall estava mais preocupado com o fato de a Grã-Bretanha ficar sem carvão e ser incapaz de competir economicamente com os Estados Unidos, dados seus suprimentos mais vastos. Imagina-se, no entanto, que, como cientista, ele ficaria convencido pelas evidências atuais.

A ciência climática é agora o futuro e não o passado, e, portanto, é hora de reconhecer e reintegrar Tyndall como um importante cientista irlandês, alpinista e intelectual público.

*Roland Jackson é pesquisadores associado em História da Ciência e Research Associate in the History of Science and bolsista visitante da Royal Institution.

Texto originalmente publicado em inglês no The Conversation.

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