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Como é ter Covid-19? 5 fatos que descobri após ser infectada

A jornalista Marília Marasciulo e seus pais, Antônio e Eleonor: a família viu que a recuperação da Covid-19 é mais complicada do que parece (Foto: Arquivo pessoal)

 

Desde o início de agosto, eu e minha família nos tornamos parte das estatísticas das pessoas recuperadas da Covid-19. Ufa, deu tudo cert…. pera! O que esses números não mostram é que a cura da doença causada pelo novo coronavírus, ainda que espontânea, não é tão simples. Cumprimos os 15 dias de quarentena desde o início dos sintomas (ficamos uma semana a mais em casa, só para garantir) e, em tese, estamos livres do vírus. Mas meu estômago ainda está bastante irritado, meu pai segue sem olfato e paladar, minha mãe sofre com dor de cabeça, e os três têm se sentido mais cansados que o normal. Sem contar que o processo inteiro foi muito mais penoso do que nos levaram a crer.

 

 

 

Não tínhamos muita dúvida de que teríamos que enfrentar a doença. É que meu pai, Antônio Marasciulo, é médico epidemiologista no Núcleo de Vigilância Epidemiológica do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina (HU-UFSC), em Florianópolis, onde acabei passando a quarentena (estou entre os muitos jovens que se refugiaram na casa dos pais). Embora raramente veja os pacientes, ele tem contato constante com os profissionais da linha de frente. Seria um milagre que passasse por essa ileso — para se ter uma ideia, a cada minuto, um profissional de saúde é infectado pelo novo coronavírus no Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde.

Fizemos o possível para minimizar o contágio. Meu pai tem mais de 60 anos e minha mãe, Eleonor Conill, quase 70. As idas ao mercado viraram minha tarefa, as regras de higiene foram redobradas e o distanciamento social, seguido à risca nas saídas inevitáveis. Mesmo assim, quando ele acordou no dia 17 de julho, uma sexta-feira, e me disse “estou mal, acho que o bichinho me pegou”, minha primeira reação foi pânico. Pela saúde dele, principalmente, mas também pela minha.

Apesar de mantermos algum cuidado entre nós, com uma área suja para as roupas que estiveram na rua, de um modo geral éramos bastante relaxados. Na noite anterior, por exemplo, eu havia experimentado vinho diretamente da taça dele. Pois é, não demorou muito até que o “bichinho” pegasse eu e minha mãe também. Eis aqui o que descobri após ter Covid-19:

1. A vida doméstica é bastante abalada

Estou entre os brasileiros privilegiados o suficiente para ter uma casa espaçosa, arejada e com cômodos de sobra para que um doente fique totalmente isolado. Mesmo assim, isso rapidamente se mostrou impossível.

Em meio a todo seu desconforto sentindo dores fortíssimas no corpo, febre, cansaço e diarreia, meu pai ignorava alguns cuidados que, a nosso ver, pareciam básicos: ele não poderia se apoiar no corrimão da escada, deitar diretamente no sofá sem algum tipo de proteção e deveria evitar ao máximo tocar em objetos desnecessários, como roupas e louças sujas (inclusive, designamos um conjunto de utensílios só para ele).

E isso nos deixou um pouco irritadas. Já estávamos preocupadas e estressadas com a situação dele, era muita falta de consideração nos colocar em risco também! Borrifamos tanto álcool pela casa, que o piso de madeira está manchado até hoje. Do alto do nosso egoísmo, achamos que, até apresentar sintomas, ele não transmitiria a doença — quando, na realidade, a ciência já deixou bastante evidente que o período de incubação (entre a infecção e o surgimento de sintomas) dura entre cinco e sete dias, e o vírus é transmitido durante esse tempo. Acima de tudo, fomos obtusas, visto que tínhamos essas informações. Minha mãe também é médica e, como jornalista, tenho feito a cobertura da pandemia desde que ela estourou no Brasil.

Logo nós duas começamos a ficar mal. Três dias depois do início da doença nele, fui tomada por um cansaço e uma dor no estômago muito forte. Na mesma noite, minha mãe teve uma febre leve.

 

 

 

2. Os sintomas são imprecisos e imprevisíveis

Não fosse o fato de meu pai estar doente e ter tido a confirmação de que se tratava do Sars-CoV-2 em um exame PCR (sigla para “reação em cadeia da polimerase”, técnica considerada padrão-ouro para diagnóstico da Covid-19), eu certamente pensaria que meus sintomas eram de estresse. Sou o tipo de pessoa que somatiza a ansiedade em cansaços inexplicáveis ou mal-estar gástrico. Refluxo e gastrite são uma constante na minha vida. Já minha mãe talvez acreditasse se tratar só de um resfriado causado pela mudança de temperatura.

Segundo a infectologista Patrícia Vanny, que trabalha no serviço de controle de infecções do HU-UFSC, desde o início da pandemia percebeu-se que a maioria das pessoas passam pela doença praticamente assintomáticas ou com quadros muito leves. Ela própria teve Covid-19 e só percebeu porque “fechou critérios”: durante alguns dias, teve dor de garganta, coriza, um pouco de dor de cabeça e tosse. “Como a orientação que a gente faz é de que o profissional de saúde não trabalhe sintomático, eu me avaliei e percebi que fechei critérios”, explica. “Um quadro absurdamente leve, em outro momento jamais deixaríamos de trabalhar em função disso.”

Além de imprecisos e facilmente confundíveis com outras doenças, os sintomas são imprevisíveis. O chefe do núcleo de vigilância epidemiológica do HU fez o exame depois que, além do meu pai, outra colega deles também adoeceu. O resultado positivo para um caso assintomático surpreendeu e trouxe preocupação, já que ele tem mais de 60 anos, é diabético e está acima do seu peso considerado ideal.

Meu irmão, que é médico residente de medicina interna no Hospital das Clínicas de Porto Alegre, estava trabalhando na enfermaria de Covid-19 e, logo que o diagnóstico do meu pai se confirmou, ele alertou: “fiquem de olho na saturação [o nível de oxigênio no sangue], porque temos visto muitos casos de hipóxia feliz”. Isso ocorre quando a pessoa não sente falta de ar e segue conversando e rindo, mas já com níveis de oxigênio baixos o suficiente para causar perda de consciência ou morte. 

Outro alerta foi para não “cantar vitória” antes da hora. “Os casos mais graves que recebemos só tiveram uma piora depois do décimo dia”, disse meu irmão, ao implorar para que meu pai, que no quinto dia começou a se sentir melhor, mantivesse o repouso. “Até lá, é fundamental evitar esforço desnecessário, manter-se hidratado e bem alimentado, monitorar a febre e a saturação”, orientou.

Sabendo disso, a preocupação em casa aumentou quando, cinco dias depois de melhorar da febre, minha mãe se sentiu mal para valer. A temperatura passou dos 38ºC, a dor de cabeça se tornou insuportável e a saturação chegou a cair para abaixo do aceitável. Por sorte, não entramos para nenhuma outra estatística — em três dias, ela se recuperou.

Marília Marasciulo e seus pais, Antônio e Eleonor (Foto: Arquivo pessoal)

 

3. Precisamos usar o SUS

Para muita gente, a frase “defenda o SUS”, o Sistema Único de Saúde, virou um lema durante a pandemia. Mas, ao ter Covid-19, percebi que não basta defender o sistema público de saúde brasileiro, é preciso usá-lo. Essa é uma das formas mais eficazes de brigar por ele — minha mãe, que é médica especialista em Saúde Pública, dedicou sua carreira a estudar os sistemas de saúde mundo afora e participou da criação do SUS na década de 1980, quase chorou de emoção ao ouvir minha conclusão. “Quanto mais a classe média usar o SUS, mais chance ele terá de ter melhor qualidade, porque isso pressiona os governantes”, disse ela.

Quando meu pai recebeu o resultado positivo, ficamos absolutamente confusos em relação ao que fazer. Deveríamos comunicar a Vigilância Epidemiológica, ou eles é que entrariam em contato? Precisaríamos fazer um exame? Fui em busca das respostas.

Florianópolis foi uma das cidades que se organizou bem para lidar com a pandemia. O sistema de atendimento por telefone, chamado “Alô Saúde”, faz uma espécie de triagem para orientar os atendimentos. Ao telefonar, me informaram que eu deveria entrar em contato com meu centro de saúde do bairro (o bom e velho “postinho”). Assim fiz. Com base na minha rua, a unidade me passou o WhatsApp da equipe da minha área (o bairro é separado em diferentes regiões de atendimento), e a partir daí estabeleci contato direto com os profissionais que cuidariam do meu caso.

Além de me passar orientações sobre como lidar com os sintomas da doença — usar antitérmicos para a febre, mas não anti-inflamatórios, e não me automedicar com remédios que não tiveram eficácia científica comprovada (uma lista os identificava: ivermectina, cloroquina, hidroxicloroquina, nitazoxanida, azitromicina e vitaminas) —, o enfermeiro agendou uma visita para fazer a coleta do teste em casa. Cinco dias depois do início dos meus sintomas, um domingo de manhã, uma técnica de enfermagem veio até minha casa coletar o PCR em mim e na minha mãe. Recebi o resultado por WhatsApp, junto com a recomendação de manter o isolamento por 15 dias e até ficar 72 horas sem apresentar febre, coriza e tosse.

Ao contar para meus amigos que estava com Covid-19, parece que me tornei uma central de informações. Entre as principais dúvidas, eles me perguntavam o que fazer se tivessem sintomas. Muitos, assim como eu, não sabiam quem procurar ou onde ficava o “postinho” de seu bairro. Por isso, reforço: use o SUS. Cada cidade tem seu modelo local, mas busque se informar sobre como ele funciona.

 

 

 

4. Está todo mundo perdido

Mas não era só em relação aos sintomas que as dúvidas surgiam. Percebi um misto de espanto com curiosidade e choque toda vez que dizia “estou com covid”, como se tivesse recebido uma sentença de morte. “E vocês vão para o hospital?”, insistiu algumas vezes uma amiga, quando pediu atualizações e eu respondi que meus pais ainda estavam com febre. Nós mesmos, em vários momentos, não sabíamos o que fazer ou o que era aceitável dentro do quadro. Todos os casos que víamos na mídia eram de situações graves e complicações muito diferentes das nossas.

Criamos uma pequena “rede de apoio” com conhecidos que já tinham tido a doença. Passei a conversar quase diariamente com um amigo que mora nos Estados Unidos e teve Covid-19 há mais de dois meses (e segue sem olfato), para entender como os sintomas dele tinham evoluído. Tenho familiares na Itália que ficaram mal quando a crise estourou por lá e nos tranquilizavam quando o cansaço e dores no corpo pareciam extremos demais para ser aceitável. E, no pós-infecção, foi a eles que recorremos para saber como agir: precisamos continuar obcecados com a higienização de objetos? Informar todo mundo que já tivemos a doença?

O Bernardo, meu amigo dos EUA, disse que também tinha todas essas dúvidas, mas havia notado que dizer às pessoas que tinha anticorpos, ainda que haja muita controvérsia científica em relação à eficácia dos testes e o que exatamente significa ter desenvolvido anticorpos, por algum motivo parecia tranquilizá-las. Então, no início de agosto, lá fui eu em busca de um teste de sorologia — o que só serviu para me deixar mais confusa e reacender meu caso de amor com o SUS.

Em azul: como o anticorpo se liga à proteína spike (Foto: David Ho/Columbia University Irving Medical Center)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foi nesse mesmo período que a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) determinou que os planos de saúde deveriam cobrir o exame de sorologia, então decidi seguir por esse caminho, para ver como ele seria. E foi árduo. Primeiro, porque os critérios para a cobertura não fazem o menor sentido técnico: a sorologia só pode ser feita em quem tiver manifestado sintomas por mais de 10 dias, não tiver feito o PCR e estiver com sintomas no momento do teste. Ou seja, se sua ideia é descobrir se aquela gripe de março pode ter sido Covid-19, esqueça.

Se você teve a doença e quer saber o que rolou, também esqueça (no meu caso, ter pais médicos ajudou a “burlar” o sistema, mas foi tudo em nome de um experimento jornalístico). Aí, é preciso encaminhar o pedido médico para o laboratório, que o envia para o plano aprovar. O processo todo levou quase uma semana. E qual não foi minha surpresa ao receber o resultado negativo para anticorpos?

5. Não termina quando acaba

A essa altura, você já deve ter lido notícias sobre casos de reinfecção confirmados ou sendo investigados. A preocupação é real: até agora, não se sabe ao certo se todos produzem anticorpos contra a doença, quão eficazes eles são, quanto tempo duram e se são o único sistema de defesa envolvido no combate à doença. Como alguém que está acompanhando tudo de perto, confesso que passei a ficar bastante incomodada toda vez que alguém me pergunta “mas e o risco de reinfecção?” ou “e você tem anticorpos?” quando digo que tive a doença.

É no mínimo contraditório uma sociedade inteira depositar tanta esperança em uma vacina e na imunidade de rebanho (cujo princípio é basicamente entrar em contato com o vírus para “treinar” o sistema imunológico) e, ao mesmo tempo, questionar se a imunidade de quem entrou em contato com o vírus é eficaz. “O que o caso de reinfecção de Hong Kong prova é que o paciente se re-expôs ao vírus, o que vai acontecer com todo mundo”, disse Vanny. “Precisamos olhar para os sintomas que apareceram nessa reinfecção, e nesse caso é animador, pois o paciente ficou assintomático.”

É verdade que ainda não se sabe quanto essa imunidade pode durar, mas os indícios são de que algum tipo de proteção exista — mesmo que ela não apareça na sorologia. Isso porque os anticorpos (cientificamente conhecidos como imunoglobulinas [Ig]) não são o único sistema de defesa do corpo. Além dessas proteínas que circulam pelo sangue, temos os linfócitos B e T, células cuja função é identificar e matar patógenos ou células infectadas.

Conforme me explicou o médico imunologista Ricardo Gazzinelli, presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI), levando em conta o tipo e a gravidade de infecção que é a Covid-19, é provável que essas células também estejam envolvidas na defesa. E isso os exames de sorologia não mostram. Então, é possível que uma pessoa que não apresente anticorpos esteja, sim, protegida contra o vírus.

Também busquei orientações da equipe médica do posto do meu bairro. Eles me enviaram a seguinte resposta, elaborada por um grupo de apoio de especialistas a dúvidas relacionadas à Covid-19: “no SARS- CoV 2 as curvas de IgM e IgG [dois tipos de anticorpos] não têm mostrado paralelo com fase aguda, fase crônica e/ou imunidade. Existem estudos que mostraram que IgM pode nunca positivar e, ao mesmo tempo, em outras pessoas, permanecer positivo por meses; assim como o IgG pode estar positivo ainda na fase aguda, logo após contágio (desde o segundo dia) e permanecer por muito tempo positivo ou até mesmo não positivar. E mesmo positivo não indicar imunidade.” 

Ainda assim, nenhuma resposta é conclusiva ou definitiva. “Os médicos estão tendo que lidar com a incerteza”, observa Vanny. “É sempre muito ruim quando o paciente quer saber algo e você não tem como dar uma informação mais precisa, mas nós ainda não temos todas as informações.”

 

 

 

Mais de um mês depois de ter tido Covid-19, minha única conclusão é de que... não existe conclusão. Embora me sinta mais segura para fazer coisas que antes me pareceriam absurdas, tipo comer em restaurantes ou entrar em uma loja, ainda olho com estranheza para velhos hábitos. Tampouco me sinto confortável em estar a menos de dois metros de distância de outras pessoas.

Também não sei quanto tempo as “sequelas” podem durar: será que meu pai não vai voltar a sentir cheiros nunca mais? E eu, que sempre adorei tomar vinho e cerveja, vou continuar passando mal depois de dois copos? Até que a ciência me traga todas essas respostas — o que ainda pode levar muito tempo — prefiro seguir atenta e mantendo os cuidados.

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