Ads Top

Confiança em vacinas cai em países instáveis e com movimentos radicais

Vacina contra Covid-19 testada nos EUA tem resultados iniciais promissores (Foto: Pexels)

 

Um grupo internacional de cientistas realizou uma pesquisa que revelou em quais regiões do mundo a desconfiança acerca das vacinas está crescendo. O estudo, publicado nesta quinta-feira (10) no The Lancet, considerou os relatos de 284 mil adultos em 149 países coletados entre 2015 e 2019. A pesquisa for conduzida por membros da Universidade de Washington, nos Estados Unidos; da Universidade de Antuérpia, na Bélgica; da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres e do Imperial College London, ambas no Reino Unido.

 

 

 

Para o estudo, os cientistas analisaram a relação entre a adoção da vacina em cada país e dados demográficos, fatores socioeconômicos e fonte de confiança (em quem confiam). Eles descobriram que a confiança do público nas vacinas varia amplamente entre os países e regiões ao redor do mundo, com sinais de que a confiança do público pode estar melhorando em partes da Europa.

Na França, por exemplo, onde a confiança nas vacinas é persistentemente baixa, houve um aumento acentuado na aceitação. Em novembro de 2018, 22% dos entrevistados concordavam fortemente que as vacinas são seguras, taxa que pulou para 30% em dezembro de 2019.

Enquanto isso, a desconfiança acerca dos imunizantes está crescendo em vários países passando por instabilidades políticas e extremismo religioso. Na Coreia do Sul, por exemplo, a mobilização online contra a imunização infantil por comunidades como a Anaki (abreviatura coreana de "educar os filhos sem medicação") foram identificadas como uma barreira importante para a vacinação.

A Indonésia testemunhou uma das maiores perdas de confiança entre 2015 e 2019: a percepção de segurança caiu de 64% para 50%, de importância de 75% para 60% e de eficácia de 59% para 47%. Os autores dizem que atitudes negativas podem ter sido parcialmente desencadeadas por líderes muçulmanos que questionaram a segurança da vacina contra sarampo, caxumba e rubéola (MMR), pois ela contém ingredientes derivados de porcos.

 

Outro caso importante foi notado nas Filipinas. Os problemas de uma vacina contra a dengue (Dengvaxia) levantados em 2017 levaram a uma queda dramática na confiança do público dos imunizantes em geral. O evento fez com que o país, que estava entre os 10 com maior confiança na vacinação em 2015, chegasse ao 70º lugar em 2019.

O estudo também descobriu que ser do sexo masculino ou menos escolarizado está relacionado a uma menor chance de se vacinar. Entretanto, essas pessoas tendem a confiar mais em profissionais de saúde para obter conselhos sobre o assunto que amigos e familiares.

Além disso, a pesquisa revelou que, em 2019, Iraque (95%), Libéria (93%) e Senegal (92%) tiveram a maior proporção de entrevistados que concordaram que é importante que as crianças sejam vacinadas. Enquanto isso, Hong Kong (36%), Rússia (34%), e Albânia (26%) tiveram as proporções mais baixas de confiança.

"Nossas descobertas sugerem que as pessoas não necessariamente descartam a importância de vacinar seus filhos, mesmo que tenham dúvidas sobre o quão seguras as vacinas são", disse Clarissa Simas, coautora do estudo, em declaração à impensa. "O público parece geralmente entender o valor das vacinas, mas a comunidade científica e de saúde pública precisa fazer muito melhor para construir a confiança do público na segurança da vacinação, particularmente com a esperança de uma vacina contra a Covid-19."

 

Importância
A confiança pública na imunização é uma questão de saúde global cada vez mais importante, tanto que a Organização Mundia da Saúde (OMS) incluiu a hesitação vacinal como uma das dez principais ameaças à saúde global em 2019. Como explicam os especialistas, a recusar ou atrasar a vacinação pode causar emergências de saúde pública por doenças que poderiam ser evitadas, como sarampo, poliomielite e meningite.

"Uma das principais ameaças à resiliência dos programas de vacinação em todo o mundo é a disseminação rápida e global da desinformação", disse Heidi Larson, líder do estudo, em declaração à imprensa. "Quando há uma grande queda na cobertura vacinal, geralmente é porque há um medo não comprovado da segurança da vacina que está semeando dúvidas e desconfiança."

A pesquisadora pondera que, às vezes, há um pequeno risco genuíno em determinado imunizante, mas, por conta da desinformação, esses riscos acabam se tornando muito maiores na visão do público do que realmente são. Além disso, Larson explica que há casos em que os debates sobre as vacinas foram propositalmente polarizados para gerar desconfiança geral no governo e nas elites científicas.

 

"É vital com ameaças de doenças novas e emergentes, como a pandemia de Covid-19, que monitoremos regularmente as atitudes públicas para identificar rapidamente países e grupos cuja confiança esteja declínio", observou Larson. "Assim, podemos apontar onde precisamos construir confiança para otimizar a aceitação de novos vacinas que salvam vidas."

Daniel Salmon, da Escola de Saúde Pública John Hopkins Bloomberg, nos Estados Unidos, explicou que a maioria dos medos de imunizantes não são apoiados pela ciência. "As vacinas têm notável histórico de segurança, baseado em processos rigorosos de ensaios controlados randomizados em fases e em requisitos de licenciamento que garantiram que os benefícios da vacinação superassem os riscos" escreveu ele, em comentário sobre o novo estudo.

Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.