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Pandemia adia gravidezes e causa estresse em novas mães, mostram estudos

Em texto publicado no The Conversation, psicóloga e psiquiatra explicam como as incertezas, o medo e o distanciamento social causados pela Covid-19 impactam mães e crianças (Foto: Dexter Chatuluka/Unsplash)

 

A gravidez já é estressante, para dizer o mínimo, e a Covid-19 traz ainda novos desafios aos pais de recém-nascidos. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) identificaram as mulheres grávidas como uma população vulnerável. Se infectadas, elas têm maior probabilidade de serem hospitalizadas e de necessitarem de ventilação, e o risco de parto prematuro aumenta.

 

Os economistas preveem que os EUA podem ter pelo menos 500 mil nascimentos a menos por causa da pandemia. Decidir não engravidar durante esse período é compreensível, principalmente nos Estados Unidos, por ser um dos cinco países em todo o mundo, sendo o único classificado como de alta renda pelo Banco Mundial, que não impõe licença-maternidade paga para empregados não federais que trabalham.

Como acadêmicas que estudam o estresse pré e pós-natal, nutrição materna e o desenvolvimento do cérebro das crianças, podemos dizer que a pandemia mudou dramaticamente a experiência da gravidez.

Fazemos parte de um estudo internacional para compreender como as gestantes ou mulheres que deram à luz são afetadas pelo estresse relacionado à pandemia. Estamos descobrindo que as mães estão preocupadas em pegar o vírus, transmiti-lo ao recém-nascido e mantê-lo seguro durante a infância. E essas preocupações são somadas a uma carga de estresse já alta para mulheres grávidas e novas mães.

Os riscos
Gestantes que testaram positivo para a Covid-19 foram associadas a anormalidades na placenta cujo potencial impacto afeta a entrega de oxigênio e nutrientes ao feto. A influência de longo prazo do novo coronavírus no desenvolvimento da criança ainda não é conhecida.

Parece improvável, entretanto, que um feto em desenvolvimento possa pegar a Covid-19 de sua mãe infectada, pois o Sars-CoV-2 precisa de uma molécula receptora para causar a infecção — e um estudo recente sugere que a placenta contém níveis muito baixos das moléculas necessárias para criar o receptor. Esse achado pode explicar porque o vírus é raramente encontrado em recém-nascidos com mães Covid-19-positivas.

 

Existem outras preocupações, no entanto, incluindo os efeitos do estresse na futura mãe.

Os seres humanos são confrontados com o estresse diariamente e a resposta fisiológica a ele é bem conhecida: leva à liberação de hormônios na corrente sanguínea, principalmente o cortisol que, mesmo na gravidez, é um pouco necessário. Durante uma gravidez típica, o cortisol materno aumenta de duas a quatro vezes, o que é normal e crítico para o desenvolvimento dos sistemas de órgãos do feto, como os pulmões, o fígado e o sistema nervoso central.

No entanto, as pessoas respondem de maneiras diferentes a situações estressantes idênticas por uma série de razões. Idade, disparidades raciais e étnicas, educação precária, preparação inadequada para a gravidez e histórico de trauma são alguns fatores que podem agravar os efeitos do estresse. Para tornar ele tolerável, suporte social adequado, acesso a recursos de suporte e estabilidade econômica são necessários.

Caso contrário, a exposição contínua a estresse significativo leva a uma ativação implacável da resposta a ele. O estresse crônico ou tóxico em mulheres grávidas tem sido associado a complicações como diabetes gestacional, desenvolvimento fetal prejudicado, baixo peso ao nascer, problemas de neurodesenvolvimento e pré-eclâmpsia (pressão alta na gravidez).

A falta de controle e de informações piora esse cenário. Coisas como não saber quanto tempo vai durar e quão intenso será o estresse aumentam os níveis de estresse de uma mulher grávida e de uma nova mãe.

 

O nascimento
A experiência hospitalar para casais grávidos agora é muito diferente. Banhos de água estão fora. Andar pelo hospital também. A maioria das instalações permite apenas uma pessoa de apoio no parto. Se um dos pais testar positivo para Covid-19 durante a internação, eles temem ter de se separar do bebê. Essas coisas costumam adicionar ainda mais estresse.

Quando a família chega em casa, ainda há risco. Os bebês podem pegar a doença de um pai infectado e, embora as crianças com Covid-19 geralmente não fiquem tão doentes quanto os adultos, os bebês são uma exceção. Por causa de seus sistemas respiratório e imunológico imaturos, eles apresentam maior risco de quadros graves em comparação com crianças mais velhas.

Diante dessa possibilidade, os pais dos bebês são aconselhados a se isolar socialmente. Isso pode oferecer algumas vantagens, mas o isolamento também diminui o acesso a creches e outros tipos de apoio social no momento em que mais precisam.

O estudo COPE
Como parte do estudo Covid-19 e Experiência Perinatal (Cope, na sigla em inglês), estamos acompanhando mulheres grávidas ou que deram à luz durante a pandemia para entender como são afetadas pelo estresse relacionado à esse período. Uma revisão inicial de dados de mais de 500 mulheres do Oregon (EUA) revelou que elas estão significativamente estressadas; seus níveis de depressão e ansiedade relatados são perturbadores.

 

Aproximadamente 75% afirmam que a pandemia está tendo impacto extremo em sua vida diária. O estresse, dizem elas, vem do distanciamento social, da solidão, das mudanças nos procedimentos hospitalares, das preocupações com o cuidado pós-natal e da falta de apoio social porque precisam ficar em quarentena.

A boa notícia: o estresse pré-natal durante a pandemia pode ser reduzido. Uma rede de suporte social robusta é crítica: amigos e familiares são necessários, pois os novos pais ficam exaustos e vulneráveis ​​à depressão pós-parto. Embora a Covid-19 torne o suporte pessoal difícil, senão impossível, a tecnologia, como Facetime e Zoom, pode ser um conector. O pré-natal em grupo online é outra possibilidade. O mesmo ocorre com as técnicas de relaxamento e mindfulness. Uma dieta saudável, sono adequado e exercícios também ajudam.

Por que essas mulheres precisam de mais ajuda do que nunca
Os agentes comunitários de saúde com clientes grávidas podem reduzir o estresse garantindo que as necessidades básicas sejam atendidas. Isso não é mais apenas comida, moradia e seguro. Necessidades antes consideradas extras, como serviço de Internet, agora são essenciais.

Infelizmente (deixando a Internet de lado) os programas federais para ajudar no acesso a alimentos, moradia e seguro variam amplamente de um estado para outro. Sem um mandato federal unificado, as disparidades sociais de saúde aumentam ainda mais.

 

A Lei de Licença Familiar e Médica oferece 12 semanas protegidas de licença do emprego, mas não é remunerada e se aplica apenas se você trabalhar em uma empresa com mais de 50 funcionários. Muitas famílias, especialmente mães solteiras, recusam essa oferta porque precisam da renda. A licença parental está associada a bebês mais saudáveis; eles têm melhores resultados a longo prazo à medida que se desenvolvem. Um investimento em licença parental economizaria dinheiro a longo prazo.

A reestruturação das políticas nacionais para atender às necessidades básicas pode ajudar a reduzir os desafios enfrentados por esse grupo carente. Sem esse apoio, o estresse da Covid-19 pode causar um impacto duradouro e multigeracional nos casais grávidos e em seus filhos.

Texto originalmente publicado em inglês no The Conversation.

*Jennifer C. Ablow e Elinor Sullivan são professoras de psicologia e psquiatria, respectivamente, na Universidade de Oregon, nos Estados Unidos.

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