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Boomers, millenials, zoomers: estamos vivendo um conflito de gerações?

Boomers, millenials, zoomers: estamos vivendo um conflito de gerações? (Foto: Ilustração: @ilecollages)

 

Até pouco tempo atrás, os millennials, nascidos entre o fim das décadas de 1980 e 1990, eram alvos de críticas dos baby boomers, aqueles que chegaram ao mundo entre 1946 e 1964. Os mais velhos atribuíam aos mais novos adjetivos como “geração mimimi”, “síndrome de Peter Pan”, “mal-acostumados”, “narcisistas” e “preguiçosos”. Agora, a geração Z, que engloba quem nasceu após o ano 2000, entrou na roda para acirrar ainda mais essas discussões.

 

 

 

Os zoomers, como ficaram conhecidos, se voltaram contra os boomers por considerá-los incapazes de lidar com problemas contemporâneos, como a emergência climática e as desigualdades sociais. Usando o sarcasmo pelo qual são conhecidos, os membros da geração Z passaram a responder às críticas dos boomers nas redes sociais com um curto “ok, boomer”.

“Toda vez que nos chamam de sensíveis ou perguntam ‘como você espera conseguir um trabalho se seu cabelo é rosa?’, tenho vontade de responder ‘ok, boomer’”, diz a norte-americana Shannon O’Connor, de 20 anos, que fez sucesso ao criar uma linha de produtos estampados com o jargão — já são mais de 7 mil itens vendidos na internet. “É como se com isso eu dissesse ‘já tive empregos, estou na universidade, tiro notas boas, então vou continuar pintando o meu cabelo de cores malucas’”, explica O’Connor, em entrevista a GALILEU. Basicamente, trata-se de uma nova forma de responder “não pedi a sua opinião”.

A pandemia colocou ainda mais lenha nessa fogueira. Uma estimativa feita pelo grupo de banco de dados imobiliários Zillow aponta que, nos Estados Unidos, quase 3 milhões de pessoas, principalmente da geração Z, voltaram a viver com seus familiares por causa da crise do novo coronavírus. O resultado? Os millenials entraram na mira dos mais novos.

“Estou cansada dos boomers colocando a geração Z e os millennials no mesmo saco, porque eu pessoalmente não quero ser associada a pessoas que ainda acham que filmes do Harry Potter são um traço de personalidade [referência às casas designadas a cada estudante de Hogwarts]”, reclamou uma jovem no TikTok, em um vídeo que recebeu mais de 110 mil curtidas. Outra TikToker (sim, essa é a rede favorita dos Z), Alyah Ramirez, tem entretido seus quase 140 mil seguidores com sátiras de conversas entre as três gerações. Não demorou para que millennials reclamassem: “O que é isso? Eu estava esperando ser velho o suficiente para reclamar das novas gerações e, de repente, estamos sendo zoados de ambos os lados. Sinto-me enganado”, escreveu o millennial Paul Gillings no Twitter.

Os millennials chegaram à idade adulta depois da virada do milênio e são mais comprometidos com a coletividade e ávidos por inovações, apesar de imediatistas e impacientes (Foto: Ilustração: @ilecollages)

 

E a guerrinha entre as gerações passou a ganhar cada vez mais contornos, chegando ao ápice no dia 19 de junho, no evento de lançamento da campanha pela reeleição do presidente norte-americano, Donald Trump. Depois de uma semana de organização, liderada por usuários do TikTok e fãs de K-pop (gênero musical sul-coreano), adolescentes conseguiram sabotar o evento ao registrarem centenas de milhares de ingressos para inflar a expectativa de público. Um misto de pegadinha com protesto que serviu para mostrar que os zoomers não estão para brincadeira.

Encontro conflituoso

Embates entre gerações acompanham e fazem parte da evolução da humanidade, conforme explica o psicólogo José Carlos Ferrigno, autor dos livros Coeducação entre Gerações e Conflito e Cooperação entre Gerações, publicados pela Edições Sesc SP. “É natural haver um choque entre o antigo e o novo, a tradição e a inovação”, analisa Ferrigno.

 

 

 

Segundo a professora de sociologia Kimi Tomizaki, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE/USP), os conflitos geracionais surgem quando grupos formados a partir de experiências diversas, que deram a eles capacidades diferentes de ler e compreender o mundo, se encontram. A partir disso, podem surgir alianças ou disputas se uma geração considera que a outra não dá respostas adequadas às demandas do presente. “Os confrontos envolvem o grupo que é detentor do poder, em relação a trabalho, política ou mesmo universo acadêmico, e os pretendentes, que são aqueles que querem entrar nesses espaços sociais”, explica Tomizaki. “Os pretendentes querem colocar em prática o que consideram mais importante, enquanto os detentores desejam preservar seus lugares, e um desconfia do outro.”

Embora estejam mais em evidência por causa das redes sociais, as dinâmicas dos confrontos geracionais passaram a ser estudadas principalmente a partir dos anos 1960, quando os boomers se posicionaram como uma geração contestadora (acreditem se quiserem, zoomers!). A partir dos anos 2000, as terminologias para descrever os comportamentos dos diferentes grupos de acordo com a idade se tornaram comuns por influência do mundo corporativo, em uma tentativa de melhor compreender as relações entre os funcionários.

Os boomers são menos propensos a mudanças, mais rígidos e fiéis a valores considerados conservadores (Foto: Ilustração: @ilecollages)

 

Ao longo das últimas décadas, foram sendo descritos os “perfis” geracionais com as características que consideramos hoje: criados sob a promessa de estabilidade econômica do pós-guerra, boomers são menos propensos a mudanças, mais rígidos e fiéis a valores considerados conservadores; a geração X, dos nascidos entre o fim dos anos 1960 e início dos anos 1980, é cética em relação a mudanças políticas e sociais e também tende a ser conservadora, além de muito focada na carreira; filhos dos boomers, os millennials chegaram à idade adulta depois da virada do milênio e são mais comprometidos com a coletividade e ávidos por inovações, apesar de imediatistas e impacientes; gerados pelos X, os zoomers cresceram no mundo digital, aprenderam a levar uma vida sem barreiras entre o online e o offline e são bastante engajados com questões sociais. E já há quem já fale na geração alpha, os nascidos a partir de 2010 e, em geral, filhos de millennials. Eles têm alto potencial para resolução de problemas e tendem a ser mais independentes.

Só que, mais do que as características dessas classificações, são as vivências em sociedade que definem uma geração. “Nascer no mesmo período histórico não basta, é preciso estar ligado a uma série de experiências comuns que remetem às mesmas questões”, pontua Tomizaki. O psicólogo Ferrigno lembra ainda que, por mais que existam perfis geracionais, é preciso cautela para não se apegar a receitas definitivas. “Não devemos criar estereótipos”, observa.

Em cima do muro

A prova de que esses termos nem sempre se aplicam a pessoas nascidas em uma determinada geração são as chamadas “microgerações”. Seriam aqueles que chegaram ao mundo no meio de um período geracional, de modo que não se identificam nem com os membros da geração anterior nem com os da posterior. Segundo a WGSN, empresa norte-americana de análise de tendências, as duas principais microgerações seriam os “xennials”, nascidos entre 1976 e 1982, e os “zennials”, que vieram ao mundo entre 1992 e 1998.

 

 

 

Os “xennials” são jovens demais para se parecerem com os boomers, mas também não se veem totalmente nos millennials. Embora não sejam indivíduos que nasceram num mundo plenamente digital, adaptaram-se rapidamente a um ambiente tecnológico e compartilham do otimismo “millenniano”. Os “zennials”, por sua vez, estão entre os millenials e a geração Z: dominam tecnologias, adoram memes e se preocupam com o planeta, mas também são nostálgicos e céticos. No entanto, se tivesse que escolher um grupo geracional do qual fazer parte, a maioria escolheria os millenials. Em uma pesquisa global da WGSN, 70% dos “zennials” disseram se sentir emocionalmente mais próximos da geração mais velha do que da mais nova.

Bandeira branca

Não reforçar estereótipos é um desafio em um mundo cada vez mais conectado digitalmente. Ao mesmo tempo em que evidenciam os conflitos, as redes sociais podem impedir o debate e o diálogo ao permitirem o fortalecimento das “bolhas”. “Vejo indivíduos cada vez menos propensos a ouvirem os outros com calma e respeito, e aí tudo vai virando polarização”, analisa Tomizaki. “Nas bolhas das redes sociais, as pessoas estão confortáveis ouvindo o que acreditam, há pouco espaço para debate, e elas parecem mais preocupadas em falar sobre as próprias posições.”

Os zoomers cresceram no mundo digital, aprenderam a levar uma vida sem barreiras entre o online e o offline e são bastante engajados com questões sociais (Foto: Ilustração: @ilecollages)

 

Mesmo sem esconder o apreço pela zoeira, a criadora dos produtos “ok, boomer” busca uma postura conciliadora. “Acho que por mais que a gente queira culpar as gerações mais velhas, sabemos que não é totalmente culpa delas”, opina O’Connor. Mas, para a norte-americana, é responsabilidade dos mais novos garantir que os mesmos erros não se repitam. Típico de uma boa zoomer — conflitos não devem tirar o foco do objetivo principal: criar um mundo sustentável em termos sociais, ambientais e econômicos. “Precisamos aproveitar essa oportunidade para fazer uma mudança, porque no fim das contas, quando os boomers eram jovens, eles também estavam promovendo mudanças”, arremata. E assim caminha a humanidade.

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