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Cientistas que descobriram vírus da hepatite C ganham Nobel de Medicina 2020

Cientistas que descobririam vírus da hepatite C ganham Nobel de Medicina 2020 (Foto: Niklas Elmehed/Nobel Prize)

 

Foram anunciados nesta segunda-feira (5) os nomes dos três cientistas laureados em 2020 com o Prêmio Nobel de Medicina. Os escolhidos são os norte-americanos Harvey J. Alter e Charles M. Rice e o britânico Michael Houghton por seus estudos sobre vírus causador da hepatite C.

 

Assim como os outros tipos da doença, a hepatite C é uma inflamação no fígado, causada por um RNA vírus do gênero Hepacivirus conhecido como HCV. A contaminação ocorre pelo contato com sangue, relações sexuais desprotegidas ou de mãe para bebê. O Ministério da Saúde estima que 80% dos casos da doença sejam assintomáticos.

O tipo C é a forma mais letal de hepatite: 76% dos 70.671 brasileiros que morreram entre 2000 e 2017 de causas associadas à inflamação no fígado tinham essa versão da doença. Felizmente, a chance de cura é de 90% se o tratamento for seguido corretamente e, por isso, a meta do Brasil é eliminar a infecção até 2030.

A estrada para o sucesso
Em meados dos anos 1970, Harvey J. Alter, do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, estava estudando a ocorrência de hepatite em pacientes que receberam transfusões de sangue. À época, o vírus causador do tipo B da doença havia sido recém-descoberto e parte do número de casos de hepatite relacionada à transfusão de sangue pôde, então, ser compreendida.

 

Entretanto, Alter e colegas perceberam que um grande número de casos permaneceu sem explicações: alguns dos pacientes apresentavam a inflamação no fígado, mas não estavam infectados pelos microrganismos dos tipos A e B de hepatite. Foi por isso que o norte-americano e sua equipe optaram por continuar investigando as causas desconhecidas da doença.

Após muitos testes, concluíram que o agente infeccioso desconhecido tinha características de um vírus. As investigações de Alter definiram, dessa forma, uma forma nova e distinta de hepatite viral crônica que, à época, ficou conhecida como hepatite "não A, não B"

Pouco tempo depois, um grupo liderado pelo britânico Michael Houghton, que trabalhava para a farmacêutica norte-americana Chiron, criou uma coleção de fragmentos de DNA de ácidos nucleicos encontrados no sangue de um chimpanzé infectado com o microrganismo misterioso. Embora a maioria desses pedacinhos fosse proveniente do genoma do próprio animal, os pesquisadores previram que alguns seriam derivados do vírus desconhecido.

Trabalho do trio foi essencial para criação de tratamentos para a doença (Foto: The Nobel Prize)

 

Então, partindo do pressuposto de que os anticorpos contra o microrganismo estariam presentes no sangue coletado de pessoas com hepatite, os cientistas usaram o soro dos pacientes para identificar fragmentos de DNA viral clonado que codificava as proteínas virais observadas anteriormente. Após uma pesquisa abrangente, um clone positivo foi encontrado. Trabalhos posteriores ao de Houghton e seus colegas mostraram que o clone era derivado de um novo RNA vírus pertencente à família Flavivirus, microrganismo então denominado vírus da hepatite C (HCV).

Dando sequência aos trabalhos acerca da hepatite C, Charles M. Rice, pesquisador da Universidade de Washington, e seus colegas resolveram investigar mais a fundo o RNA vírus. Eles observaram uma região anteriormente não caracterizada no fim do genoma viral e suspeitaram que aquela área poderia ser importante para a replicação do microrganismo. Além disso, Rice observou variações genéticas em amostras de vírus isoladas e formulou a hipótese de que algumas delas faziam o trabalho contrário, isto é, impediam a replicação do vírus.

 

Por meio da engenharia genética, o norte-americano gerou uma variante do RNA viral que incluía a região recém-definida do genoma observado, mas era desprovida das variações genéticas de inativação. Então, quando o RNA foi injetado no fígado de chimpanzés, o vírus foi detectado no sangue e foram observadas alterações patológicas semelhantes às ocorridas em humanos com a doença crônica — prova final de que o vírus da hepatite C poderia causar, sozinho, os casos até então inexplicáveis ​​da inflamação.

Importância
A descoberta do vírus causador da hepatite C possibilitou o desenvolvimento de testes sanguíneos altamente sensíveis para o microrganismo agora disponíveis, o que essencialmente eliminou a transmissão da doença por transfusão de sangue. Além disso, medidas preventivas e a testagem da população podem ser realizadas com o intuito de prevenir, identificar e tratar pessoas infectadas.

Trabalho do trio foi essencial para criação de tratamentos para a doença (Foto: The Nobel Prize)

 

A descoberta também permitiu o rápido desenvolvimento de medicamentos antivirais direcionados à hepatite C e, pela primeira vez na história, a doença pode ser curada e possivelmente erradicada. Para atingir esse objetivo, os especialistas afirmam que serão necessários esforços internacionais para facilitar a testagem de pessoas para a inflamação, além da disponibilização de drogas antivirais em todo o mundo.

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