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Movimento antivacina usa os mesmos argumentos há 135 anos, aponta cientista

Vacina (Foto: Pexels)

 

À medida que nos aproximamos de uma vacina eficaz para Covid-19, devemos esperar ver um novo impulso de desinformação e resistência vocal do movimento antivacinação. Ao longo de todo o ano, teorias da conspiração aparentemente intermináveis e campanhas de desinformação ganharam força online em meio ao aumento das taxas de infecção da Covid-19 em todo o mundo. Olhar para a história desses movimentos pode nos ajudar a entender por que eles podem ser tão eficazes em capturar seguidores populares.

 

Como historiadora da medicina, ficou claro, ao pesquisar a história das vacinas, que aqueles que promovem a antivacinação usam de forma consistente um conjunto padrão de estratégias. Embora possa ser difícil ver os padrões de argumento no contexto moderno, olhar para trás em um exemplo histórico de epidemia e desinformação fornece um estudo de caso útil para revelar as estratégias de antivacinação recorrentes hoje em dia.

Um panfleto popular publicado em 1885 durante a epidemia de varíola em Montreal é um ótimo exemplo. Mais de um século depois, temos o benefício de viver em um mundo que erradicou a varíola usando uma vacina. Ainda assim, no passado, a vacinação contra a varíola era fortemente contestada, apesar das evidências a favor de sua eficácia.

A manchete do panfleto do Dr. Ross de 1885 denunciando a vacinação contra a varíola. (Foto: (Biblioteca Digital HathiTrust))

 

Publicado por um líder antivacinacionista, Dr. Alexander M. Ross, este panfleto foi amplamente divulgado durante a epidemia de varíola de 1885 em Montreal, quando as autoridades de saúde pública buscavam aumentar a cobertura vacinal.

Ross aproveitou a oportunidade de aumentar as medidas de saúde para ganhar autoridade, notoriedade e fama pessoal. Ele se pintou como o herói de sua própria história, o “único médico que ousou duvidar do fetiche” da vacinação. Apesar disso, descobriu-se que ele havia sido vacinado durante a epidemia, fato que foi alegremente divulgado pelos principais jornais da época.

 

Seu panfleto serve como uma ilustração excelente das estratégias usadas pelos antivacinacionistas — tanto naquela época quanto agora. Esses argumentos não são novos e mudaram pouco com o tempo. Aprender a reconhecer sua reembalagem em uma forma moderna pode ajudar a combater eficazmente seu poder.

Minimize a ameaça de uma doença

O título de uma seção do panfleto de Ross. (Foto: Biblioteca Digital HathiTrust)

 

 

Ross e seus associados antivacinação foram rápidos em descartar a ameaça da varíola. Apesar das taxas de mortalidade entre 30% e 40% e da extrema contagiosidade da doença, era comum os antivacinacionistas afirmarem que a varíola era apenas uma ameaça menor para a população.

Ross lamentou o “pânico sem sentido” causado por funcionários da saúde e médicos sobre a epidemia, alegando que a varíola não era, de fato, uma epidemia e que a cidade tinha “muito poucos casos.” Os números oficiais da epidemia acabariam subindo para 9.600 casos notificados, com 3.234 mortes — quase 2% da população de Montreal na época. Outros 10 mil casos foram registrados na província de Québec, mas os historiadores acreditam que os números reais foram provavelmente muito maiores. Esses números e a história dessa epidemia foram narrados pelo historiador Michael Bliss em seu relato de não ficção, Plague: A Story of Smallpox in Montreal.

 

 

A minimização da ameaça também é uma tática comum nos debates contemporâneos. Muitos que promovem a agenda antivacinação afirmam que as vacinas são mais perigosas do que a doença.

Alegar que a vacina causa doenças, é ineficaz ou ambos

Uma seção descreve toda uma série de supostos efeitos da vacinação contra a varíola. (Foto: Biblioteca Digital HathiTrust)

 

 

Embora os argumentos modernos tenham se concentrado na falsa alegação de que as vacinas causam autismo, os argumentos históricos eram muito mais variados em suas alegações de infecções pela vacina contra a varíola. Os antivacinacionistas do passado afirmavam que a vacinação causava um espectro completo de doenças, desde a própria varíola a sífilis, febre tifóide, tuberculose, cólera e “envenenamento do sangue”.

Essas alegações nem sempre eram infundadas, mas seus riscos eram consistentemente exagerados. Foram conhecidos casos de transmissão de doenças secundárias devido a práticas inadequadas. Alguns médicos usaram a vacinação braço a braço — o que significa que usariam o mesmo instrumento para vacinar uma fila inteira de pessoas — ou vacinas preparadas de origem humana em vez de bovina. A falta de limpeza e esterilização entre as operações ou o uso de vacina preparada a partir de uma pessoa infectada pode levar a casos raros de transmissão de doenças secundárias.

A descoberta de tais transmissões (anos antes) desencadeou alguns dos primeiros regulamentos em torno da preparação e administração da vacina e gerou uma grande preocupação na comunidade médica sobre a segurança da vacina — uma preocupação que continua a ser um pilar da produção de vacinas até hoje.

 

Declarar que a vacinação é parte de uma conspiração maior

Desenho retratando um homem da classe trabalhadora sendo vacinado à força por um oficial de saúde, enquanto estava detido por um policial. (Foto: Biblioteca Digital HathiTrust)

 

 

O panfleto de Ross foi inflexível sobre o papel da imprensa e da classe médica em alimentar o medo de infecções como parte de uma campanha “maluca” para ganhar dinheiro. Assim como hoje, as epidemias criaram oportunidades tanto de emprego quanto de pesquisa na área médica. No entanto, esse emprego foi pintado como uma exploração antiética dos pobres, valendo “um milhão de libras esterlinas” para a profissão, em vez de um esforço no combate ao sofrimento e à morte de milhares.

Além disso, as medidas de saúde pública foram descritas como um atentado aos direitos pessoais e um abuso do poder governamental. “Não fale mais sobre a tirania russa”, declarou Ross, pois não havia “ninguém tão formidável” quanto os funcionários de saúde da cidade. Seus argumentos ainda ecoam mais de um século depois na atual pandemia, pois vemos um apoio contínuo por trás da crença em uma conspiração para limitar as liberdades (entre outras teorias da conspiração mais radicais ).

 

Use autoridades alternativas que legitimam seu argumento

A seção final do Panfleto de Ross inclui uma longa lista de depoimentos contra a vacinação dos “médicos mais eminentes da Europa”. (Foto: Biblioteca Digital HathiTrust)

 

 

Por último, mas não menos importante, é um apelo às autoridades que ajudem a legitimar o argumento antivacinação. O movimento antivacina moderno tem uma abundância deles, liderado por Andrew Wakefield, o agora desacreditado ex-médico que originalmente publicou o estudo fraudulento ligando a vacina MMR (sarampo, caxumba, rubéola) ao autismo.

Mas o movimento antivacinação tem uma longa tradição em promover as palavras de “especialistas” que apoiam sua narrativa. No século 19, os debates sobre vacinação muitas vezes trouxeram um pequeno círculo semelhante de médicos que falavam contra a vacinação, chamando-a de uma prática “suja” e “má”. Embora seus argumentos tenham sido refutados por muitos na comunidade médica, eles ganharam um manto duradouro de prestígio entre os antivacinacionistas como "as vozes autorizadas que ofereciam a 'prova' necessária."

 

Esta não é uma lista exaustiva de estratégias antivacinação — históricas ou contemporâneas. Sempre houve indivíduos que capitalizam as crises médicas para promover sua própria agenda e, na era moderna da mídia digital, as estratégias de desinformação evoluíram e se expandiram. Assim como Ross, os líderes desses movimentos ganham poder social pintando-se como guerreiros solitários.

À medida que nos aproximamos de uma distribuição mundial da vacina Covid-19, podemos esperar ver mais e mais desses ativoistas publicando argumentos contra a vacinação. Quebrar padrões de argumentos vistos repetidamente no passado pode fornecer uma lição útil para combatê-los no futuro.

*Paula Larsson é aluna de doutorado do Centro de História da Ciência, Medicina e Tecnologia da Universidade de Oxford. O texto foi originalmente publicado em inglês no The Conversation.

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