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Em “Plastic Hearts”, Miley Cyrus exalta emancipação feminina e sentimentalismo retrô

Você talvez não tenha vivido os anos 1980, quando era comum ouvir o rádio e esperar até altas horas pelos programas românticos. Mesmo assim deve saber o impacto que isso surtiu graças à imortalidade de canções entoadas por nomes como Bonnie Tyler, Whitney Houston e George Michael. Foi por meio de um empurrão deles, e de sua estética ora melódica, ora rebelde, que a disco music aposentou as chuteiras e deu espaço para o nascimento de outro período.

O disco que Miley Cyrus lança nesta sexta-feira (27) tenta resgatar de forma honrosa o que teve início há quatro décadas. Honrosa, o que não significa melosa ou apaixonada. A começar pelo visual, que inclui batom vermelho, cabelo à la Debbie Harry e peças de couro. Com o conjunto da obra em mãos, tudo se potencializa, fazendo para o sucessor de “Younger Now” (2017) a escolha de um caminho mais rebelde e vibrante.

Com Mark Ronson entre os produtores (é dele “Nothing Breaks Like a Heart”), o projeto se esforça para não deixar rastros sobre o reaproveitamento de faixas da trilogia “She Is”, descartada no último ano. Assume em diversos momentos um viés existencialista e refrescante que, mesclado ao bom e velho pop-rock, apresenta uma Miley mais feminista e cercada de boas referências.

Essa fusão eletrizante começa a se revelar logo na abertura com “WTF Do I Know?”. São questões que escancaram um desejo de se encontrar em meio ao caos. “Gimme What I Want” reforça essa natureza ultrajante por meio de batidas arrastadas e sons robotizados. Forte candidata a novo single.

Mas é com os duetos que o mergulho da artista se desenha como ainda mais destemido, a começar por Dua Lipa, em “Prisoner”. Ao lado da colega britânica, mostra perspicácia não apenas na criação de um refrão grudento, mas também pelo resgate do sample de outra música genial: “Physical”, de Olivia Newton-John.

É ela quem dá ritmo à narrativa, reforçando uma estratégia já realizada na excelente “Midnight Sky” – deixa para o mash-up perfeito com “Edge of the Midnight”, de Stevie Nicks. 

Pouco a pouco, conforme o disco avança, o visual ganha força e coloca em evidência a liga dada pelo conjunto como um todo. Ao lado de Billy Idol em “Night Crawling”, por exemplo, Miley tenta recriar o frisson dos shows de rock daquela década. Com ritmo frenético, ambos assinam uma espécie de chamado à subversão, o que a faz, novamente, com que a autora se atenha às próprias imperfeições. 

Em “Bad Karma”, sua colaboração com Joan Jett, alcança o equilíbrio político. Nem só de amor vive uma mulher, afinal. Inspirada pela eleição de Donald Trump, em 2016 (quatro anos depois, derrotado nas urnas), a canção revela uma interpretação em um tom mais suave, feita entre gemidos, quem sabe, sob uma luz etérea. Quando se dá conta, o ouvinte percebe que ela e Jett acabam se fundindo. É, talvez, o maior acerto.

Os vocais bem trabalhados, invariavelmente, também destacam canções menos agressivas, como é o caso da própria faixa-título e “Angels Like You”. Em ambas, discursa sobre sua desilusão com a fama e a inconstância das relações, às vezes no mais puro estilo “O problema sou eu, não você”. “And it’s not your fault I can’t be what you need. Baby, angels like you can’t fly down hell with me“, canta em um dos versos — em tradução livre, “Não é sua culpa que eu não possa ser o que você precisa. Querido, anjos como você não conseguem voar até o inferno comigo”.

Do time de baladas, há dois grupos cruciais: o primeiro deles é reservado às que se destacam por sua exuberância, tal qual “Never Be Me”. Trilha sonora perfeita para acalmar a figura alucinada, que vai ao encontro da própria liberdade e conduz o ouvinte à pista dança. Em um modo mais suave, ela agora imerge em uma nuvem de fumaça para dançar agarrada a alguém enquanto os amigos vão embora.

O segundo momento, um pouco enfadonho, conta com “High” e “Hate Me”. Esta última, basicamente uma prima de outro grande sucesso, “The Climb”.  

Ao encerrar esta jornada, a sétima da carreira, Miley Cyrus provoca uma sensação de ressaca. É como se o fim de uma noite regada a rock n roll se aproximasse e a artista pudesse oferecer a si mesma uma espécie de expurgo. Quando a mensagem bate em quem escuta, reverbera como um merecido respiro em meio ao caos e à própria saturação da música pop – que por vezes assume uma postura desinteressante. Em seu posto de ícone do pop-rock, pode-se dizer que não há nada igual.

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Ouça “Plastic Hearts” no streaming.

Spotify | Deezer | Apple Music 

 

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