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O escrivão da Polícia Federal que pesquisa vacina contra a Covid-19

O veterinário Ney Almeida trabalha como escrivão da PF e pesquisa uma vacina contra a Covid-19 em seu doutorado na UECE (Foto: Divulgação)

 

A vacina contra a Covid-19 pode vir de um lugar inusitado: a Polícia Federal (PF) brasileira. Enquanto alguns dos maiores laboratórios do mundo correm para desenvolver do zero uma solução de imunização para a doença, o cearense Ney Almeida, escrivão da PF, teve a ideia de testar a vacina para bronquite aviária contra o vírus causador da atual pandemia. “O coronavírus que causa a bronquite infecciosa em aves é um gamacoronavírus, e o Sars-CoV-2 é um betacoronavírus. É como se fossem primos”, explica. “E a vacina para frangos contra a bronquite aviária existe há mais de 60 anos.”

 

 

 

Embora o trabalho de escrivão tenha um quê de pesquisa, visto que é ele quem dá apoio aos procedimentos policiais de investigação, Almeida é veterinário por formação — e o estudo com a vacina é, na realidade, parte de seu doutorado em biotecnologia na Universidade Estadual do Ceará (UECE). “Sempre gostei da área da saúde, mas tinha mais aptidão para bichos do que humanos, me interessava muito por essa parte da biologia, pelas reações químicas”, conta Almeida.

Em 1995, entrou no curso de medicina veterinária da UECE e, no terceiro semestre, já começou a se interessar por vírus. Emendou a graduação em um mestrado na mesma área para pesquisar mais sobre os organismos. Só que, ao concluir os estudos, desanimou ao se deparar com as poucas ofertas de emprego do mercado de trabalho. Descobriu que poderia prestar concurso para a PF, e assim fez, em 2004. Foi aprovado para o cargo de escrivão e mudou para o Amapá para tomar posse. Foram oito anos no estado, durante os quais passou a gostar da rotina do serviço de polícia. “O escrivão auxilia o delegado com o inquérito, a investigação é como uma pesquisa”, diz.

Mas, de volta a Fortaleza, a área acadêmica o atraiu novamente. “Quando voltei para casa, senti que estava no meu habitat, voltou a veia de pesquisador”, conta. Conversou com a antiga orientadora de mestrado, que topou orientá-lo no doutorado. Em 2017, como bom filho, retornou à UECE.

Burocracia contra pesquisa: parte 1

A proposta inicial, na realidade, era vincular o trabalho na PF ao doutorado. “Queria encontrar um bioagente capaz de infectar a planta da maconha e acabar com as culturas ilícitas”, explica. A proposta era modificar algum vírus de plantas que atuaria somente na cannabis. Para os testes, porém, precisava de autorização da Justiça para cultivar a planta, ilegal no Brasil. “Meu prazo estava esgotando e veio também a pandemia, então mudei o projeto”, justifica.

 

 

 

Por causa dos anos estudando virologia animal, Almeida sabia que a bronquite aviária não era uma zoonose — ou seja, a doença não era transmitida dos animais para os humanos. Sabia também que trabalhadores de granjas que manipulam a vacina contra coronavírus aviário produzem anticorpos para a doença, mesmo sem manifestá-la. Ora, se quem entra em contato com a vacina contra o coronavírus aviário produz anticorpos, e ele é “parente” do Sars-CoV-2, será que esses anticorpos poderiam amenizar os sintomas da Covid-19? E mais: será que a mesma vacina que é usada nas aves serviria para humanos?

É menos esquisito do que talvez soe. Na prática, vacinas para animais passam por quase as mesmas fases de testes que as para humanos, com exceção de dois pontos: uma fase clínica em humanos, mas, antes disso, a certificação (em camundongos) de que o imunizante não causa malformação fetal.

Almeida resolveu testar tudo isso. Começou com as fases pré-clínicas, vendo se os anticorpos contra a bronquite aviária funcionam contra o Sars-CoV-2. In vitro, colocou os anticorpos contra a bronquite aviária em contato com o novo coronavírus e percebeu que eles neutralizaram o causador da Covid-19. “Na contagem de placas, vi que as células só com o vírus foram destruídas, e nas com anticorpos a taxa de sobrevivência foi acima de 80%. Eles fizeram todo o papel de uma vacina”, detalha. Na sequência, inoculou o vírus da ave em camundongos, que produziram anticorpos sem apresentar efeitos colaterais.

Burocracia contra pesquisa: parte 2

Falta, agora, avançar para os estudos em humanos. Primeiro, Almeida pretende ir às granjas coletar amostras sanguíneas dos trabalhadores que entraram em contato com a vacina e que tenham produzido anticorpos. O objetivo é ver se, in vitro, eles neutralizam o vírus causador da pandemia.

Caso o resultado seja positivo, pode seguir então para os testes clínicos, divididos em três fases — a primeira começa com poucas dezenas de pessoas para ajustar a dose, a segunda inclui centenas de voluntários para confirmar se há indução de resposta e, na terceira, observa-se a reação em alguns milhares de indivíduos, em estudos controlados para verificar se a vacina funciona, de fato. Quando todas as fases são cumpridas, o produto é submetido a agências regulatórias, que devem licenciá-lo para aplicar na população.

Mas a pesquisa esbarrou novamente em burocracias. Desde agosto, aguarda o aval do comitê de ética para que os testes avancem. “Algumas universidades deram prioridade para pesquisas relacionadas à Covid-19, mas na UECE o prazo segue normal, e o comitê só se reúne uma vez por mês”, lamenta. Por via das dúvidas, em setembro Almeida registrou a patente de um novo uso da vacina da bronquite aviária em mamíferos contra o Sars-CoV-2.

O professor doutor Maurício van Tilburg (à esquerda), a professora doutora Maria Izabel Guedes (ao centro) e Ney Almeida (à direita) (Foto: Divulgação)

 

Se avançar para testes clínicos, o que só poderá ser feito com o aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o próximo desafio será angariar fundos para dar continuidade — mais pela logística do que pelo processo de produção, visto que a vacina já existe e é relativamente barata (ele estima que 100 doses para aves custem cerca de R$ 10 no total). Aliás, Almeida especula que é talvez por isso que nenhuma farmacêutica tenha investido em estudos semelhantes. “Elas estão atrás de descobrir algo para elas, porque essa vacina já existe desde 1950, não há mais dinheiro para ganhar em cima dela”, opina.

Ele também lamenta o ritmo lento imposto à ciência brasileira. “Nossas pesquisas não têm extensão adequada, não acompanham a sociedade e ficam muito restritas aos bancos das universidades, que praticamente só produzem papel. A gente ia para eventos e ficava por isso mesmo”, observa. “Acho que precisamos aproximar o que está dentro da universidade, dar uma guinada para o povo conhecer o que acontece nas instituições, talvez dar incentivos para que o setor privado invista nelas.”

 

 

 

Mesmo assim, ele não perde o otimismo. “Claro que o vírus pode ter mudado, mas temos um embasamento de uma literatura de 50 anos, que mostra que as pessoas não adoecem, só produzem anticorpos, além de ser uma vacina com aplicação por via oral ou intranasal”, diz. “Sou bem otimista, a pesquisa tem respaldo e acredito nela. E todo o pessoal do laboratório está esperançoso.”

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